terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

roseiral.

(muito muito tempo depois, escrevo)

No meio da casa tem uma cela
abarrotada de ouriços.
Eles espetam uns aos outros
não por maldade
o encostar machuca
e é preciso se aproximar para fugir.

-----

Fugas não planejadas
a casa na mala de garupa
o caminho da praia
a praia nua.
Antes da praia um roseiral
os espinhos.
[minha avó dizia: Cuidado com os espinhos, eles furam a pele e navegam no sangue até o coração, morre-se assim]
Morre-se tanto.
Eu não sou amor da cabeça aos pés.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

perfil - nov/2012

Me gusta reir como una loca.
lindo é uma ducha quente esfumaçando o banheiro do hotel pela manhã.
pedaços de vidro, nos mais variados formatos, também me encantam.
começo a sentir que envelheço rápido.
eu achava que com o tempo aprenderia a ser mais paciente;
é o contrário.
tenho a cada dia mais ganas de esganar.
não sou doce, não sou bonita, não sei sambar.
o não-fazer-nada me atrai sempre mais.
apesar disso, eu falo, e falo, e falo...
e nem são muito belas as coisas que digo.
Por qué no te callas, Bethânia?

terça-feira, 11 de setembro de 2012

sala da árvore.

Há uma árvore na minha sala,
famílias de pássaros e estranhas lagartixas.
Uma casa que ainda não me possui.
Um casamento que não me convence.
Eu, mais branca que a lagartixa,
tenho medo do vulto dos galhos quando escurece.
Queria ser bicho, mas temo o vento.
Tendo que ser uma esposa, eu estou mais pra casulo.
Borboleta que involuiu.
Era para ser uma casa a dois, mas tenho sido caracol,
sozinho com o peso da morada.
Caracol deixando rastro de lesma.
Comendo as folhas da árvore da sala.
Comendo a sala.
Quebrando um pedaço da casa-concha a cada tropeço.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

anotações sobre as águas.

nas águas moram seres assustadores, mas eles são coloridos.
para navegar, há de se ter fé.
e a areia cobriu o mastro
(para conhecer o mar, tem que saber cantar).
-----

os peixes são filhos da Mãe d'Água.
ela me chama nas noites certas.
não possuo escamas,
sou peixe de lodaçal.
queria ter o colorido da Mãe D'água:
escamas-escudo de cristal fino.
sou peixe de couro,
vivo na parte escura do rio.
-----

a cobra grande tem o cheiro azul.
não! o cheiro é verde.
............ marcas da cobra
rastros linhas traços
aquilo que se mostra sem se mostrar.
-----


gosto mais da cor morena, que casa com a areia da praia e com o verde da beira do rio.
-----


anotações sobre assombrações:
ele me assombra, escorrega no frio por ele feito verão.
é peixe de rio,
de um rio no qual eu não consigo desaguar.
os meandros onde o peixe repousa
com seus olhos-de-não-compreender.
de que rio é feito esse choro?
rio misturado com mar.
um peixe morando em teu olho.
como se nada assim em um outro?
-----


o meu córrego preferido tem nome de árvore.
quero parir dentro d'água uma menina com nome de flor.
-----


eu não sei remar,
isso é triste porque eu não deslizo.
eu gostaria mais de saber remar do que escrever.
-----


em qual camada na terra você vive?
eu vivo na mais úmida,
acho que é o ventre de alguém.
aqui há sempre um barulho de água pingando.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

de encontros com onças.

Ela sumiu.

Ela não consegue caminhar porque quebrou o pé esquerdo.

E por que não tem escrito aqui? Também quebrou a maquininha das idéias? Bateu a cabeça e ficou lelé-da-cuca?

Não, é que ela sabe pelo corpo. Uma parte dele avariada confunde todo o mecanismo de sapiência. Triste sina de quem é virado em bicho.

Bicho?

Lembram uma história que ela contou sobre o encontro com uma onça chamada Bernadete? Pois aconteceu de elas viraram uma só. Quando toparam uma com a outra, a onça espiou fundo os olhos dela e ela mirou firme os da onça. Deu nisso, viraram uma só, meio onça meio moça. Não se deve olhar muito certos seres que encontramos no caminho. Meio dia e seis da tarde, então, danou-se.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

notas encontradas em um grande caderno de capa vermelha.


Há sempre mais a dizer, mas me parece difícil explicar o desplazamiento. É algo de tristeza, tédio, timidez, solidão, ansiedade, estranhamento e medo. Medo porque eu sei que as experiências marcam, cavando ainda mais esse desplazamiento dentro de mim.

Eu percebo que nunca sei me portar adequadamente.

Tantas coisas que não se pode olvidar, ainda que se olvide,
não se pode!
Olvidar é uma maneira de não ter mais medo, porém alguns medos fazem morada
[e outros medos fazer amor?]
Não olvidar... Não duvidar
Falar a mim mesma como se eu fosse tu em viagem até meu corpo
Eu sou tu em meu corpo
Eu sou tua cabana, até quando queiras
Não disponho de nada
Não deponho por nadie
A vida sem vias
Salvação?
Dizem que é bonito lá fora.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

dentro.

Claro está que o tempo aqui dentro passa mais depressa do que a minha respiração pode acompanhar sem faltar o ar. Mas aqui dentro surgem lembranças ágeis não combinando com clima de imobilidade. Meu interior é um mundo também composto sabe-se lá de quais/quantos extra-humanos. Bebo chá de camomila para agradar o corpo e borrifo essência de alecrim no quarto de janelas sempre fechadas. Meus olhos de bugre, que minha mãe diz herdados de minha bisavó, cansaram das miradas entre quatro-paredes, entretanto, têm preguiça da luminosidade. No mais, eu me preocupo com o que dizem os profetas, não pelas profecias, mas pelo tom de gravidade o qual sempre me emudece.

quinta-feira, 31 de março de 2011

notas dos últimos dias de março.

Comprei um vestido florido (nenhuma novidade).
Quase não consegui sair da cama,
a vida anda muito crônica para encará-la.
Eu nasci em um rio escuro, lodoso, por isso sou meio peixe,
respiro mal fora d’água e gosto dos dias úmidos.
Ontem, um pássaro piscou para mim de cima da caixa do correio,
corri para abrir,
achando que era o sinal de que missivas me haviam chegado;
nem mesmo um bilhete.
Olhei feio para o pássaro e ele voou,
arrependida, chorei.
Ouvi um vizinho ensaiar trompete e ri dos desafinos,
dos dele, não dos meus.
Minha mão melhorou, mas a ferida ainda não fechou por completo
(alguma ferida fecha por completo?).
O médico disse que ficará uma cicatriz (nenhuma novidade).
Enfrentei uma barata como se isso fosse salvar minha vida,
a barata escapou
e eu desacreditei a salvação.
Fui ao cinema e chorei, menos do precisava,
mais do que o resto do público aprovou.
Vontade de parar com o choro e botar as barbatanas no rio.

sexta-feira, 25 de março de 2011

rosa e hernández.




Rosa e Hernández iam casar, mas ela acabou comprando uma bicicleta. Não que ela não amasse Hernández, não era isso. É que Rosa passava por cima de muitas coisas, mas mentira era algo que a machucava irremediavelmente. E Hernández mentia. Por medo, insegurança, canalhice, hábito, habitus, ou por tudo isso. Rosa ainda achava que ele era o amor de sua vida, porém descobriu que Hernández nunca seria o homem da sua vida, o homem com quem ela dividiria o peso da sacola de feira. Claro que perceber isso doía, mais do que quase tudo que já doeu. Rosa, entretanto, não tinha escolha, ou melhor, tinha, e escolheu que mais valia uma sinceridade na boca do várias mentiras dando rasantes. Ela sabia dos riscos, lembrava da música “no campo do amor, a mulher que não mente, não tem valor”. Mas os valores de Rosa eram outros, melhores? piores? Ela não saberia dizer, eram apenas outros. E Hernández era agora também um outro para ela, um outro que ela não sabia relativizar, não estando tão perto. Rosa aprenderia a ficar só, ela, com seus espinhos sinceros.

sexta-feira, 18 de março de 2011

modern romance.

[os dois estão sentados lado a lado em um bar, mesa de madeira, pouca luz, copos de cerveja]
Ela: Tu está bem? Não está sentindo dor?
Ele: O pé dói um pouco, mas estou bem. Tu notou que temos piercings iguais nas orelhas?
Ela: É?
[ela pega na mão dele, ele a olha tímido, meio sorriso, e ficam assim, carinhando um a mão do outro]
Ela: Eu acho que estou apaixonada pela tua doçura morena.
Ele: Fica, apenas fica?
Ela: Fico. Tu me ensina a andar de bicicleta?
Ele: Sem te deixar cair.
Ela: Eu acho teu nome esquisito.
Ele: Eu acho o teu nome bonito.
Ela: Eu te acho bonito.
Ele: Eu te acho bonita..., e esquisita.
[risos]

ao som de modern romance na versão do tv on the radio.

terça-feira, 8 de março de 2011

hacer amor.



por aqui, ainda não aprendemos a fazer amor por telepatia
sabemos fazer amor, isso sim.
hora de costurar novos tons na veste surrada.
posso bordar tulipas também em teu corpo,
só não peça para regá-las com nada menos que a vida.
a minha vida, for sure,
da tua, eu nada saberei além de arremedos
- o mostrado quando não se sabe/quer viver de todo –
medos? ainda temo o morno.
continuo a doer nos outros, e vice-versa,
porém agora contabilizo de outra maneira.
o estar-aqui é que não pode machucar.
marcar ≠ doer → no olvidar
amor? que es esto?
é costurar um mesmo tecido.

PS: Es difícil hacer el amor pero se aprende (Antonio Cisneros).

--

sexta-feira, 4 de março de 2011

coisas que ela quer...



Ele tem uma cor que faz bem, uns olhos escuros que sabem mirar. Algo tão novo parecendo um antigo calor. Ele é pequeno, ela quer abraçar. Ele machucado, ela ninando, segurando no colo, segurando em si. Ela quer apertar a mão dele por um tempo sem relógio, conversar sobre os Azande, ouvir folk songs, recitar Cisneros, oferecer drops de laranja, qualquer coisa, mas de mão. Ela, branca e falante, agora fica corada e perde as palavras. Mas não quer esconder coisas boas, porque aprendeu a mostrar tudo de si para quem sabe ouvir. Ele sabe ouvir. Ela também tem fraturas, aquelas de sempre, as que ficaram ali, lembrando que existem quando o tempo está para chuva. Ela, sempre tão cinza, quer ser sol para ele, quer ter olhos que não sejam de nuvem. Ela quer aprender com ele a pedalar. Ela teria uma bicicleta com cestinho para colher flores (do campo, sinceras como a última noite) e presenteá-lo, com o vestido voando e um sorriso discreto. O sorriso dele também é discreto, mas ela sentiu caber ali dentro. Poderiam passear pela grande cidade, tímidos e trôpegos como Jacques Tati.

São pensamentos dela para ele.

Ela teme o desencontro, mas vê que caminhos diferentes continuam sendo caminhos. E caminhar (ou pedalar) pode levar até à beira de um lugar bonito, novo e com vento fresco.

Ele ainda não sabe, ela sussurra daqui:
- Eu vivo por dias mais frescos...
E o sussurro é também um convite.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

itaúnas II.

Os caminhos do pequeno vilarejo,
os atalhos de poeira percorridos por meus pés duvidosos.
Eu, acostumada com o asfalto, perco-me aqui.
Escuto as toadas e sei que é tempo de resguardo.
Desenho flores descombinadas com o lugar,
de(s)componho.
Acender um cigarro para a dona da mata
e abrir os caminhos.
Traçados de mim imaginando a grande cidade
na qual ele vive.
Ele, que eu nem sei quem é.
Mas e aqui?
E essa terra de reis trajando mantos de chita?
Parto a rodar montada em um cavalo-marinho.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

itaúnas.



Existem horas,
depois dos pandeiros e do banho no rio
em que ela pensa no estar junto.
Coisas da vida a qual muda mais do que ela,
Mesmo não se sentindo de todo.
E a dor volta comprimindo os músculos dos olhos,
inclusive quando ela enxerga à distância.
Algo dela a ficar na areia...
E cores na retina, mais vivência do que olhar.
Lembrando as coisas que importam.
Ela, a menina dos olhos de nuvem
nuvem nuvem
que chove quando todos esperam o sol.

-----------

Cecília está sem relógio, não sabe a hora de retornar. Os caminhos sempre se abrem, mas as horas, quem sabe? Cecília a ouvir os pandeiros. Pequenos passos de quem esquece como bailar. No lo se, no lo se... Mira, Cecília, a rua de chão batido cortando a vila como tu já cortaste teu corpo. Mira o rio vermelho/amarelo a contar as histórias que tu não conseguias ouvir. Vamos, moça de flor, arruma o cabelo, veste uma cor e aprende o lugar. Escuta, Cecília, o canto gritado das mulheres da roda, vive o tambor. O lugar onde o mundo começou, onde tu aprendeste a ser flor e cor de crepom.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

eco.

Os dias não foram desenhados para ela
Rabiscos fazem parte da vida de forma mais sincera.
Faltava o ar, entre reencontros e outros,
eles, que haviam casado com o desplazamiento.
Completar bodas, sempre em vão, incompletas.
A falta de dizer: é isso o que eu quero!
A falta de saber.
À beira do lago-rio, pedidos viram pedaços do poente,
que já foi mais bonito.
Qual a tua idade?
O tamanho dos pontos desfeitos em cada vestido.
Ele pede desculpa por suas confusões.
Ela pede desculpa pela idiotice (a de sempre).
Eco, é sempre um eco que salva as noite de silêncios cruéis.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

gente das águas.

Cecília já tinha certeza de que viveria como aquela gérbera, mergulhada sozinha na morada de vidro. Foi aí que a campainha tocou:
- Oi, eu sou Davi, mudei pro apartamento da frente. Eu fiz muita salada de fruta, quer um pouco?
Ela quis e achou que Davi tinha um quê de pescador. Só que no dia seguinte, ele apareceu convidando-a para jogar videogame e Cecília pensou “isso não combina com pescaria”. Ela disse que não podia, tinha muita coisa do mestrado para ler. Davi perguntou o que ela estudava:
- Eu estudo COM uma comunidade de pescadores.
- Que bonito. Um dia, se os pescadores deixarem, eu posso ir junto contigo fazer umas fotos? É que as coisas da água me encantam.
Foi então que Cecília percebeu que não era um ar de pescador que ele possuía e sim um ar familiar. Talvez ainda não familiar, mas que logo seria, só pelo jeito-cheiro de gente das águas que Davi tinha.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

fim de festa.

Eu que sou triste, meio des-sendo, achei que a festa tinha acabado. Mas então surgiu, não sei trazida por quem, outra cachacinha e acabei ficando um pouco mais. Eu olhei assim, ele olhou pra mim e eu disse, des-dizendo, “love u”; e a noite foi de um bailado bonito, meio trôpego, mas com ritmo. Só que no dia seguinte (o dia mesmo, não a pílula) eu acordei de ressaca, mandei-o embora, vomitei, tomei chá, expurguei e decidi que nessa festa eu não quero mais dançar. Quem sabe quando o carnaval chegar...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

partida.

Por aqui, morre-se devagar, e soluçando. E não adianta beber 8 goles d’água que o soluço não passa.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

camélia.

Dia abafado como meus pedidos de dedicação; as tonturas voltaram e eu como pouco. Lembro quando eu não tinha idéia de como seria à noite, agora sei de tudo e isso me engasga. Eu nasci camélia, já disse, um tanto puta, mas doce. O que se evita dizer com tanto silêncio não será realmente dito? Eu, vidente, abro as cartas sem dó de mim mesma, sabendo que cortes com folhas de carta doem mais que cortes com folhas de livro. Eu sei de tudo, aprendi fora dos livros quando fui dona de um sítio distante das grandes cidades. Lá, eu nunca recebi nenhuma visita, e se recebesse, colocaria a vassoura atrás da porta. Aquela porta pesada de madeira era a grande governanta dos meus dias, encarava-me com rigor quando eu saía para os trabalhos na horta, e, na minha volta, olhava meus pés, para saber se meus sapatos estavam sujos da terra seca da estrada. Eu nunca peguei a estrada, não queria, não era preciso. Agora leio cartas em uma rua central, larguei o sítio e entreguei a grande senhora de madeira aos cupins. Nunca me apeguei a rigores nem a seus servos. O que me irrita é saber que nessa noite será tudo igual e, infelizmente, meu cheiro de camélia não impregnará as ruas dessa metrópole descrente.

sábado, 16 de outubro de 2010

sobre pássaros e limoeiros.

O frio reina ainda em outubro, aquele vento de chuva a cutucar os pássaros de cujos nomes não lembramos. Os pés de Davi sentem a terra virando areia e ele segura forte os grãos entre os dedos. Cecília aparece rosada, vem do caminho dos limoeiros trazendo doçuras. Estava a colher nomes de flores para a filha que vem. Cecília usa um vestido solto, de tecido talvez um pouco mais transparente do que o suficiente, verde com pequenas flores brancas e na gola e nas mangas, babados de fundo branco com pequenas flores verdes. Davi, com os pés cada vez mais cavoucando o chão procura torná-los raiz, mas a areia não tolera que se fixe com profundidade. Cecília se aproxima e Davi conta, com a mão direita estendida: “Fui abrir uma cerveja e estava difícil. Fez um corte tão bonito na minha mão, uma linha tracejada”. Cecília beija o corte e fica com uma marca vermelha na boca, como se bebesse suco de morango e algumas gotas tivessem se perdido no caminho entre o copo e a boca. Ela lambe o gosto terroso de sangue. Davi abraça forte Cecília, sabe que ela precisa, ele a conhece melhor que à palma da mão agora cortada. Eu olho, de longe, e me esforço ainda para lembrar sobre os nomes dos pássaros.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

fragmentos de dias costurados com tecidos suaves ao toque.

Rosa pergunta calma quem lhe servirá chá nos dias de enxaqueca. Hernandéz responde que ele, ora essa, e ele também plantará as ervas no pequeno canteiro do terraço. A partida será só por alguns dias, uns maiores que os outros, mas os quais não formam uma vida inteira. Rosa pensa que trabalhar cansa e desenha outras cosmologias. Hernandéz arruma a mala e fotografa Rosa abraçada na coruja Clarabóia para fitar durante a viagem. Chove e venta forte naquela província, como sempre foi o costume. Rosa e Hernandéz costumam apreciar frases pequenas e comidas feitas de aipim. Ela pinta com cores vibrantes as unhas dos pés, pois sabe que ele fica excitado. Vibram juntos, por certo que também sons esquisitos como os do piano preparado de Cage, mas juntos. É primavera, os ipês floriram, como também aquela outra árvore, pequena e com flores brancas, que Rosa e Hernandez sempre esquecem o nome.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

desplazamiento.

A vida segue um rumo o qual nem sempre lhe convém.
E ela, que já não estaria presente retoma a linha
[aqui
um quase lugar sempre borrado.
O poente tem a cor da ausência.

desplazamiento

Ela dança uma valsa torta,
tímida como todas as suas danças.
Música nenhuma lhe cabe por completo:
ela, porosa que é.

it's a lonely day

Está em casa?
Estar em casa também não é físico.
Fotografa galos de gesso em tardes de sol
e esquece se passou o filme para frente ou não.
Ela conhece o azul que embala,
pero hay siempre laranja demais em seus dias.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

malefício.

Nada,
a casa muda
apenas os retratos
a mirar com ar de descrédito.
Justo quando tudo supostamente viraria mais
Será malefício?
O ar calmo não aparenta
carregar nenhuma investida.
E como se proteger aqui?
Esperar o tempo mudar,
como quem observa uma árvore crescer
Em cidades sem trilhos
ouvir o apito é mau agouro
Mas dizem haver muita vida
por trás das janelas cerradas.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

da chuva, das viúvas e de outras senhoras.

Chove de ouvir as poças do outro lado da veneziana, rangendo com ela. Como se aqui ninguém entrasse e se pudesse flutuar sozinho em uma cama. A chuva apela a mim, eu que só guardo gotas de mar.

Desenho bonecas com cabelos de nuvem, mas queria mesmo desenhar artérias novas para meu pai. Eu, pequena e branca como ele.

O temor bóia comigo na cama, tudo inundado nesse inverno prolongado.

Visto coletes de retalhos coloridos e me estranho no espelho. Procuro o colete salva-vidas laranja como o entardecer da casa de meus pais.

Rogo voltar a rezar, mas sinto vergonha.

A chuva cai apontando para mim do lado de lá da vidraça. Tonteio quase caindo da cama-barco em uma poça-arapuca.

Ninguém bordará “ficará tudo bem” nos dias que eu visto.
E essa moça do tempo a só prever nuvens cinza nos cabelos de minhas bonecas?

Sou viúva de um pirata, desaprendi a naufragar navios inimigos. Viúvas de piratas encolhem mais do que as outras viúvas.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Descola de pijama.

Nem acho bonito sentir essa tristeza. Sinto falta do mar, do cheiro do mar marcando o ar da noite. Não sou para esses dias de pouco romance: nasci camélia. Quando criança, eu brincava em um jardim em forma de coração, me equilibrava por lá. Jardim de encruzilhada... Como eu envelheci assim? Lembra que eu cheirava à camomila? A primavera vem perto e eu não serei mais rainha. Talvez por ter perdido meu vestido de marinheira. Gosto da palavra pijama, é sincera. Hasteio meu pijama – minha bandeira contra os descolados que dormem nus. Nunca fui descolada, sou bem mais Descola! Sento na xícara-maluca para tontear minha angústia. Rodar é sempre uma fuga singela. Lembra eu+tu rodando bêbados na sauna? Foi quando a tempestade de verão encontrou o vento minuano – da série encontros grandiosos (ou/e fatais?). Eu fugiria em um barco com o pijama no mastro.
Saudade de um pirata.
Saudade de um pirata.
Saudade de um pirata.
Pi-ra-ta parece pi-ja-ma. As palavras e suas vivências conosco. Queria voltar a acreditar nas fugas, nos rompantes. Quando parte o barco para Capauari?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

balanço.

Sendo um retalho descombinado e desfiado do teu casaco, eu me encontro em abismos de jardim. Sendo tua pequena vida servida com o café-com-leite, eu saio colorida do gibi. Sendo aquela que desafina a música no banquinho-e-um-violão da nossa cama, eu saboreio casadinhos com chá de camomila. Despretensiosa sigo pretendendo corromper a tua vida até sermos tu o balanço e eu as correntes de ferro na pracinha da esquina.
O vento irá nos fazer dançar.





---------------------------------------------

sei que ando sumida, daqui e dos blogs dos amigos, mas tentarei estar mais presente..., tentarei.

domingo, 4 de julho de 2010

convite para o frio.

Nas estradas da vida, ou nas entranhas? Soa comigo, soemos uma missa contemporânea (e vivos). Vem ser cada dia mais vivo comigo. Eu sozinha sou menor do que meus olhos. Meus olhos, tuas pequenas gotas de mim. Aceito envelhecer contigo no tapete da sala. Mas vem forte aqui dentro, até envelhecermos e virarmos um só tapete de retalhos, e mesmo depois. Toca-me, eu, teu piano de sempre, meu corpo soando em tuas mãos. Pareço um passarinho, tu dizes, mas sozinha despeno até congelar pelo vento sul. Tu és meu casaco de penas, eu sou teu ninho. Essa noite vai ser de geada, queres ver? Enrosco-te, cachecol colorido que és, e te mostro o inverno. O branco derretendo com o andar da manhã. E depois, nós no andar de cima, enrolando os corpos e desgelando a estação. Desgelando essa coisa ruim que é eu ficar sozinha de ti e tu sozinho de mim. Vem, vamos ler O Cru e o Cozido debaixo das cobertas. Eu tenho um corpo quentinho para hibernar em volta do teu.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

na estrada: trecho santa maria-porto alegre (bloco de notas do celular).

No ônibus: Chuva lá
fora e frio aqui den
tro (not warm insid
e). Estou tão cansa
da, I need another c
igarette. Um pedaç
o meu servido com t
orta de limão, bitter
sweet. Canto pra ti
, sem notar as BRs
que nos separam. S
ou uma mistura mal
mexida e requentad
a antes do gás aca
bar.E olha que só e
ntregam gás nas qu
intas-feiras. ‘Cause
of you. A janela do
corredor refletindo
sombrinhas colorid
as, ou serão guarda
sóis? Dias de chor
ar por miudezas bo
nitas. Dias de brinc
ar de dar beijos no
espelho. Esquecer
os ingressos para o
teatro de bonecos
. Construir uma oca
maloca ao redor do
teatro e chamar os
bonecos para sent
ar em volta do fogo
. Relâmpago: eu tin
ha medo quando cri
anca. Mas o tio José
me ensinou a preve
r tempestades. Ca
nto pop music e o cl
arão vai assustar l
onde daqui. Eu gost
ava de tocar flauta
doce, lembrava do
campo. Eu não nasci
no campo, e sim nu
ma rua mansa, em u
ma casa cor de ros
a. Talvez por isso e
u tema a correria d
as grandes cidades
cinza. Agora devo a
quietar, logo o ônib
us ancora.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Nem que eu quisesse ser mais doce.
Nem que eu pudesse ser mais, sempre mais.
Quem mais nos importa é sempre quem se importa menos.
Exportar então? Piadinha sem graça em dia de chuva.
- O que tu quer de janta hoje, meu doce? Eu? Tem certeza?
Sei não sobre coisas ditas antes de dormir ou depois do sexo,
ou depois do sexo E antes de dormir.
Sei não sobre coisas ditas.
Fico aqui com jeito de quem não vai muito longe.
Quando eu era jovem, gostava de sair,
hoje gosto de dormir.
Mas eu sairia num passeio com Jacques Tati;
andar pelas ruas como quem aprende a costurar.
Logo o dia termina,
então não tenho sono,
então tenho medo.
Há um monstro escondido na segunda gaveta do meu guarda-roupa;
um monstro que não morre nem com tantas naftalinas.
As fotografias que bato saem borradas, como minhas fronteiras.
E acabaram as bandeiras para marcar as conquistas.
Soluciono algo construindo morada pra lá do poente?

segunda-feira, 7 de junho de 2010

caixa de costura.

Eu bordava o tecido quadriculado distraída.
Não ouvia o que vinha de lá.
Não ouvia o caminhar da agulha,
mas ouvi meu dedo chorar ao ser bicado por ela.
Não que ele sentisse muita dor,
é que bicadas são sempre ofensivas,
vão desfazendo as boas relações.
Uma mancha de sangue no tecido,
um enfeite de flor vermelha completando o bordado.
Um dedo chorão.
Eu construía coisas sempre mal encaixadas.
Alinhavava torto.
Enrolava-me com as linhas.
Amassava os tecidos.
Meus pequenos monstros eram recheados de espuma e vazios,
vazios meio encaroçados.
Eu costurava como quem passeia sozinho no parque.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

o sumiço da coruja Clarabóia.

Minha coruja de nome Clarabóia sumiu! O pior é ter sido tudo culpa minha. Ando desolada, não sei o que hei de fazer. Ai, ai. Bem, explico agora o sucedido:

O humor da minha ave já não estava muito bom, ela andava de cara amarrada desde o nosso retorno de Arambaré. Eu também era apegada ao lugar, entretanto, decidi vir; o inverno se anunciava e eu temi que a figueira não me esquentasse o suficiente. Antes de virmos, eu ainda falei:
- Podes ficar aqui, Clarabóia, eu me viro na capital da província,... e na primavera eu volto, há de passar rápido.
Clarabóia rodou a cabeça, sinalizando um “não” super reforçado. Assim, viemos, de mala e cuia.
A coruja sentia falta da lagoa, dizia que o lago-rio não era a mesma coisa. Eu concordava:
- Sim, é diferente, mas é bonito, Clarabóia, tente se animar.
Clarabóia estava achando Porto Alegre barulhenta em demasia, e implicava com as muitas pombas, dizia que em pombas não se pode confiar. Eu fazia de tudo para agradá-la, até a levei para passear de pedalinho no lago da Redenção, mas ela não gostou, sentiu tontura. No fatídico dia do sumiço, ela reclamou não haver pitanga na capital, sentia desejos por pitanga. Tentei conversar, meio irritada, confesso, mas tentei:
- Não é um problema da cidade, minha querida. Simplesmente não é época de pitanga, é certo que de Arambaré elas também sumiram. E tem mais: sei que a senhorita sabe disso melhor do que eu, estás reclamando para incomodar!
Clarabóia arregalou bem os olhos e, então, começou a piscá-los muito rápido(fazia isso quando percebia o choro vindo e queria disfarçar). Chamou-me de insensível e pousou na janela sem floreira, de costas.
- Desculpa, Clarabóia, não falei por mal. Mas ando cansada de tuas birras. Enfim, desculpa, vamos ficar de bem, vira pra cá, vou ler uns poemas para ti.
Ela virou um pouquinho o pescoço, mas continuou de bico para mim. Peguei o livro da Adília Lopes que rolava pelo quarto e pus-me a ler em voz alta. Clarabóia estava gostando, esboçou um sorriso inclusive. Mas foi então que tragédia aconteceu. Eu lia, desatenta, não me dei por conta o que dizia:
- “Tenho pelos meus poemas
a ternura que a coruja tinha pelos filhotes
mas não tenho a sua cegueira
porque sei que Diderot acha os meus poemas maus
a coruja disse à águia
podes comer os passarinhos que quiseres
mas não comas os meus filhos
os meus filhos são os passarinhos mais bonitos
que encontrares na floresta
a águia comeu os filhos da coruja
comi os teus filhos porque eram feios
disse a águia à coruja
as comparações são muito perigosas” ...
Clarabóia deu um berro, pôs-se a chorar, sem disfarce de piscadelas nem nada, pegou seu cachecol amarelo e bateu asas. Fiquei um tanto perdida, demorei a dar-me conta do que estava acontecendo. Quando percebi, ela já voava longe... Ai, que insensibilidade a minha!

Passaram-se já três dias e nenhuma notícia. Peço, se alguém a vir, fazer o favor de avisar que eu não queria magoá-la, a tenho em grande estima e não tive a intenção. Falem que sinto saudade e até terminei de tricotar aquele xale roxo o qual ela tanto me pedia. Digam que eu posso até reconsiderar voltar para Arambaré! O que não posso mais é ficar sem saber daqueles dois olhinhos arregalados que me faziam companhia nas noites de insônia, isso não... Ai de mim!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

da costela.

Eu quebrei uma costela, foi um pequeno acidente doméstico de uma pessoa não tão bem domesticada: eu. Quando se quebra uma costela, não há praticamente nada a fazer, só esperar. Eu não sou dada a esperas, e me custa saber que tenho algo quebrado dentro de mim (mais um algo seria o correto). Andei uns dias enfaixada, mas não gostei, me senti apertada, joguei as ataduras no lixo.
Daniel: - Tu é de vidro.
Eu: - Sim, sou de vidro, que no fundo é areia...
O vidro é frágil, eu sei, mas também pode ser bastante bonito, colorido, e se bem cuidado, dura até perto do para sempre. Mas o que mais me encanta são as cores, o reflexo delas surgido com o tocar dos raios-de-sol.

E por fim, eu até que gosto de cacos, desde que brilhem.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

outono outra vez.

Como se o frio trouxesse aquele cheiro que mora entre a barba e o pescoço do amor de sempre. Um amor que vive sob a pele, sob a carne, embaixo das unhas, dentro das marcas, dos poros do corpo. Eles se escondem do frio brincando de ser fogueira um no outro. O roupeiro em curva, a cama vazada e o abajur no chão: o quarto velho, o velho cheiro, a velha beleza dele ao gozar. Um amor tão Copacabana em uma cidade bastante ao sul. A vontade de acordar entre a geada e não sair do pequeno sítio de som de trem e piano; como se o trem e o piano fossem amigos antigos a contar segredos dele para ela. E tudo é tão branco quanto a geada. E tudo umedece com o sol mostrando cores as quais eles aprendem a apreciar. Ela come o doce cor-de-rosa, ele bebe o café pingado, e na mordida e no gole estão juntos entre mesas antigas de padarias estreitas no Uruguai. “Estamos casados”, ele diz, enquanto ela lhe arruma o cachecol e sorri um sorriso que é dele. O trem e o piano cantam, ele dança engraçado, ela procura as meias entre as muitas cobertas e o outono se mostra bonito para quem quiser ver.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

personagens e drops de laranja.



Eram apenas personagens, por que não entendiam isso? Que mania esquisita era essa a de acharem que possuíam uma tão grande importância? E ainda por cima acabaram meus drops de laranja. Odeio esses medos tolos de alguns personagens em qualquer proximidade com a vida real. A vida real é aqui fora, e já está cheia, doce. Personagens são escritos no tempo livre, enquanto ainda existe tempo livre. E eu os escrevo como quiser: melosos, medrosos, sensatos, tolos, enfim... Sim, eu também sou um personagem; a diferença é que conheço a narradora de outros carnavais e ela me deve alguns favores. Posso sair daqui quando achar por bem, como quem sai de uma festa sem se despedir dos anfitriões. Personagens com mania de grandeza são estranhos, e me cansam. Com mania de grandeza basta eu! Ai, ai, esqueci minhas meias novas por aí. Andar por aí também me cansa. E a chuva que durou apenas dois minutos... Quando eu ia começar a construí-la como personagem, ela partiu. Melhor assim, escrevo menos e dá tempo de ir comprar mais drops de laranja antes do próximo capítulo da vida real. Nos vemos em algum texto por aí, doce.

terça-feira, 27 de abril de 2010

hidrocor (ou não-escrevendo-sobre).

- Gosto de quando o cabelo fica úmido assim.
Ela entregue, ele sensato. Mas a segurava forte, mesmo, com um forte carinho. Bem, ela sentia-se bem. Dias sinceros. “Quando você não tá aqui”... Ela queria cantar, porém achou muito. Por que ela tinha que se apegar tanto? Por que ela tinha que se entregar tanto? E tanta chuva quando ele não estava mais perto. “É... você não tá aqui”.
- Pára! Não somos personagens teus, Bethânia. Fomos um pedacinho minúsculo de viver junto, só isso!
Silêncio da autora (a Bethânia, no caso)...
[Nada como um cobertor cor-de-rosa quentinho para acolher uma saudade-lembrança].
- E fim.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

neon.

Costurando uma vida aqui
como quem costura botões novos em um casaco gasto.
Tentando levantar da cama,
sair dessa posição de doença grave;
que seja crônica até, mas não grave!
É sexy ouvi-la lendo em espanhol:
- Desplazamiento ontológico
...e continua, sem levantar os olhos do papel.
Sonhei que alguém me procurava em uma festa
e eu dançava entre piscadelas de luzes coloridas.
Ela nunca lembrava bem de quando chegava em casa,
era sempre um mistério tomado pelo cheiro de álcool e tabaco.
Nunca mais fiquei na rua até o amanhecer,
até porque o dia, aqui, demora a amanhecer.
As madrugadas chovem dentro de mim
e eu transbordo medo do escuro.
Amar coisas sem nome não é uma escolha...
- Desliga o letreiro em neon, por favor,
ela pede, cansada de dançar.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

cigarra.

Cecília despertou com a garganta a doer muito,
conseguiu fazer pouco além de desenhar quadrados e afins.
Havia sonhado que lhe faziam confissões...
Sentiu falta do sudeste e das lições por dias mais frescos;
passear de barco com o sol esquentando o rosto.
Aqui o frio começa a fazer ouvir seu uivo
e Cecília não sabe se está pronta,
provavelmente os mantimentos estocados não serão o suficiente.
Cecília, cigarra triste e silenciosa.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

da subida.



Ele disse: “A piece of me is yours”. Ela já sabia, já sentia, mas era sempre bom ouvir. Saiu de casa, escutando nos fones as canções de quando eram apenas eles. Agora, tinha um ar de petúnia em tudo o que ela fazia, em tudo o que via. A escada se alongava, deixando verem suas calcinhas por baixo dos degraus vazados. Ela não se importava, e subia, mesmo tonta. Quanto tempo se passara desde o primeiro levantar de perna? Não lembrava se começara a subir com o pé esquerdo ou com o direito. Fazia diferença? Ao menos ela carregava araçás no bolso do vestido, caso a fome a assaltasse e ela já estivesse muito longe para o retorno. E sempre havia a possibilidade de descer escorregando pelo corrimão, embora isso provavelmente a tonteasse ainda mais. Por fim, podia se jogar, quem sabe ela pudesse voar, ou flutuar, nunca se tem certeza da própria anatomia; lembra daquele moço que tinha o coração do lado direito? Então, essas coisas acontecem... Ela, sempre tão medrosa para as alturas, ia e ia e ia, cada vez mais para lá de onde se sabe o que encontrar. A porta da qual haviam roubado a maçaneta ficara para trás fazia tempo, nem era mais possível escutar o seu rangido. Subir, num bolso os araçás, no outro, a piece of him, e na boca, um cantarolar de quem sabe sempre ir.

terça-feira, 6 de abril de 2010

convidando Rosa.

Rosa queria lembrar-se de como era quando sabia ser bonita. “Eu usava vestido? Sim, acho que sim”. Lembrou que bagunçava o cabelo e sempre passava lápis nos olhos. Quando sabia ser bonita, Rosa era bastante bonita, caminhava à lá Natalie Portman e fazia de conta saber sobre quase tudo. Rosa sempre soube muita coisa, era deveras inteligente, mas quando não sabia, ela inventava, com ar de convicção. Rosa era engraçada e dizia coisas que faziam muito sentido. Ela embrulhava sonhos para presentear quem a tratasse com boniteza. Hoje, Rosa está triste, acha que não sabe mais encantar. Mas eu vou chamá-la para sair:
- Rosa, te arruma, vamos fotografar o outono!
Depois vou propor cinema, e juro que conseguirei arrancar-lhe ao menos um sorriso.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Agora vou embora.
Será que etnógrafos nunca mais têm uma casa?
Será que não se sentem em casa nunca?
Parece que refresca sempre depois que eu parto.
Uma vida em busca de ventos frescos.
Eu soprei em vão, não soube ser vento.
Uma vez trombei com a tempestade e nós nos deixamos.
Eu sou muitomuitomuito triste e não sei o motivo.
Tenho muitas motivações para a vida,
mas elas me escapam como quando eu corria atrás dos vaga-lumes.
Minha mãe diz que eu era uma guriazinha bastante feliz.
Cadê essa pequena?

sábado, 27 de março de 2010

before the rain.

O telefone toca sempre nas madrugadas, chamados ininteligíveis, rumores de possíveis dias melhores os quais nunca chegam. Eu atendo, e choro, machucada, e depois eu mesma machucando-me. Não quero viver em desespero. Tenho vontade grande do não-viver. Mas então penso em círculos os quais não se fecham, como em Antes da Chuva ,e tenho ganas de ir a Macedônia. Anseio por recomeço, não por falta de amor e sim por falta de força, ou de crença (o que talvez seja a mesma coisa), para agüentar os rumores que ficam somente em rumores. Fujo do ódio, mas ele bate na porta da frente, cada dia mais insistente. Talvez eu deva sair pelos fundos, ir para onde Time never dies The circle is not round. Talvez uma das minhas únicas crenças.

quarta-feira, 24 de março de 2010

poeminha bobo da espera.

Será que ele vem?
Será que vem mesmo em abril?
Se ele vier vou convidá-lo para ir ao cinema, ao parque, ao 512, a um passeio pelo lago Guaíba.
Se ele vier, vou convidá-lo para minha cama e para mim.
Ele disse que vem e que vai desenhar no meu corpo, a minha tatuagem só dele.
Se ele vier, vou fotografá-lo distorcido e com flash amarelo; ele é claro, combina.
No começo vou falar pouco, assuntos sem nexos: “Como vai tua mãe?”, e depois vou falar muito, ainda sem nexo, e só vamos nos entender na hora do sexo.
Então vai ser preciso não falar nada e se tocar muito, porque eu vou querer sentir tudo dele na minha pele, e será outra tatuagem.
E vou decorar uma música bem bonitinha da banda que ele me mostrou pra cantar antes da gente dormir.
Se ele vier vou achar as folhas de plátano tão lindas que quererei ter uma coleção delas, uma para cada lembrança dele deixada aqui.
Eu espero que ele venha...

terça-feira, 23 de março de 2010

das pintas.

eu tenho essas pequenas pintas pelo corpo,
queria-as sementes, das quais brotassem flores-cores:
eu seria, então, jardim.

quarta-feira, 17 de março de 2010

a morte de rosa.

Rosa morria. Hernandez não se importava, ele tinha pressa para as coisas dele. Talvez não fosse crueldade, todos têm pressa, e ela já não era mais alguém que valesse a pena manter viva. Não, Hernandez achava não ter mais nada a tentar com Rosa. Ele tinha um novo amor, mais leve, mais moderno, talvez menos profundo, mas ele estava gostando disso, das coisas simples. Andar na superfície realmente exige menos esforço. E Rosa morria. Hernandez a apagava a cada negativa em tentar amá-la. Achava que ela não merecia o seu suor, ele não iria desperdiçar a sua juventude com uma pessoa que lhe exigia tanto. Ele era como era, não queria mudar, não queria enraizar-se em Rosa, tinha preguiça de regá-la. Hernandez tinha as coisas dele pra fazer, coisas alegres. Tudo bem, Rosa tinha sido muito as raízes dele nos momentos mais doídos, mas enfim, fora uma escolha dela. Agora ele estava bem, e era isso que precisava viver, o estar bem. Rosa falava muito, chorava muito, amava muito: Rosa cansava. E mesmo que ela fosse linda, mesmo que fosse doce, mesmo que fosse o melhor sexo, e até mesmo poesia... Mesmo assim, não era o que Hernandez queria. Ele decidiu ser Rosa a melhor lembrança, e só. Ninguém o condenaria por isso, afinal, rosas têm espinhos, ele não era obrigado a se arriscar tanto. E Rosa morreu enquanto Hernandez ia ao banco.

da ausência.

como se adaptar a uma ausência?
a uma falta do tudo que completava um quase tudo?
dormir mais, beber mais, ler mais, trabalhar mais, transar mais, fumar mais, viajar mais...
fazer sempre mais de todas as coisas para sentir menos?
talvez...
talvez tornar-se também ausência,
ser a falta de um cheiro, de um toque, de uma voz doce, de um abraço quando se soluça...
estou aprendendo, manipulando a memória, desconstruindo paisagens, deletando sons,
o silêncio, velha estratégia da memória.
buscar sempre algo de novo, preencher com a própria busca e com os encontros.
deixe em paz meu coração
que ele é um pote até aqui de mágoa
e qualquer desatenção, faça não
pode ser a gota d'água...

preencher com a mágoa?
é justo?
a ausência não é justa.
e acho que ela, quando transborda, cobrindo tudo com seu vazio, asfixiando,
dói mais do que a mágoa.
talvez seja escolher o que se suporta melhor,
enquanto o encontrar-o-novo ainda é busca.
afinal, é sempre uma troca.

sábado, 13 de março de 2010

um pássaro listrado.

Ele disse que não estava bem e perguntou:
- Vem me ver?
Cecília replicou:
- Tu quer que eu vá?
- Quero muito.
Cecília foi. Ele usava calça listrada, ela vestido listrado. Ele não estava mesmo bem e ela ficou triste ao perceber. A última coisa dita por ele antes de dormir foi:
- Eu gosto muito de estar perto de ti.
Cecília olhou-o muito tempo dormindo, achou que ele parecia um pássaro machucado. Ela queria pegá-lo no colo, mas apenas fazia cafuné em seus cabelos e segurava sua mão. Era bom segurar forte a mão dele e sentir o sangue de ambos correr no mesmo ritmo (pulsar-junto). Ele parou de tremer. Cecília ficou olhando aquele corpo magro, o nariz fino, o bigode retrô, as pernas compridas. Não sabia se chovia, mas ouvia o som dos carros chiarem como se a velha avenida estivesse molhada. Não importava a chuva, ela gostava daquele som. Ela não entendia bem porque estava ali. Talvez porque gostasse muito dele, como quem gosta do morno do sol no inverno; talvez porque apesar dele dizer que tinha medo de tanta coisa, era ela quem tinha medo de dormir sozinha. Cecília cochilou; quando acordou estavam ambos exatamente na mesma posição, deitados de lado, de mãos dadas, joelhos dobrados, os dela encostando-se aos dele, ou vice-versa: formavam um desenho bonito. As folk songs cessaram e ela não dormiu mais. Olhava-o, simplesmente, e sentia carinho, uma carinho enorme, como quando eles se viram pela primeira vez e, segundo ele, ela chegou de canto e disse "oi”. Ele acordou assustado, Cecília o achou bonito. Transaram, na fala dela, ou treparam, de acordo com a dele.
- Eu adoro trepar contigo.
Cecília sorriu. E parecia realmente tão intenso. Cecília gostava quando ele cantava. Fumaram (sempre). Ele teve tosse, depois voltou a tremer, a sentir tontura e dor de cabeça. Cecília abraçou forte, beijou-lhe o rosto. Disse que achava que ele ia ficar bem. As peles deles começaram a puxar uma pela outra, como se soubessem que o tempo corria. Cecília perguntou:
- E a dor de cabeça, tá muito forte.
- Tá forte, mas não o suficiente.
Seus corpos ficavam bonitos assim, nus e grudados; mais bonitos do que com as listras. Água, precisavam de água. Conversaram sobre coisas nunca antes ditas, as coisas feitas pelas pessoas antes mesmo de se encontrar, como a música que ele compôs para ela muito antes de se verem e subirem lá no alto, para ver o pôr do sol do lago-rio. Riram, ela sentada na beira da cama, riram. Mas ele notou no fundo de Cecília algo de tristeza.
- Não estou triste, só acho estranho.
Dormiram tarde e acordaram cedo. Cecília presenteou-o com um livro:
- Pra ti ler na viagem.
Era uma despedida, ele quem partiria (as cidades cada vez maiores, as quais Cecília tanto temia). Ele disse fazer tempo que não ganhava um presente legal. Aperto, vontade de não ir. Cecília falou, quase sem falar:
- Sabia que tu suspira enquanto dorme?
- Como assim?
- Tu dá uns suspiros enquanto está dormindo, ora.
Na rua, ela viu que sim, havia chovido (eram as águas de março fechando o verão). Cecília viu tanta coisa naquela manhã. Aprendeu que podia amar pássaros, que talvez aquela fosse uma forma bonita de amor. Cecília achou que também parecia um pássaro, mas menorzinho. No final, eles ficariam bem, teriam ninhos bonitos e saberiam voar.

PS1: Não suma!
PS2: Não morra!

quarta-feira, 10 de março de 2010

lover's day.

Oh but the longing is terrible,
A wanton heart under attack.
I wanna love you
All the way off.
I wanna break your back.

Colour of all that's hysterical,
Travels along your bones.
Just to be near you sucking your skin,
Not gonna leave you alone.

Yes here of course there are miracles,
A lover that loves that's one.

Groomed with the laughter,
Ecstatic disaster,
Come let's arouse the fun!

We could build an engine,
Out of all your rising stars.

Tear apart the apart,
We seem to think we are!

Call off work let's lay!
Call it Lovers Day!
Call it Lovers Day!!

Give me the keys to your hiding place,
I'm not gonna tear it apart.
I'm gonna keep you week in the knees,
Try to unlock your heart.

You're gonna turn me animal.
You're gonna turn me dumb.
Your kiss in the night,
Bringing the light,
You're like the rising sun.

I hunger for you like a cannibal,
Not gonna let you run.
I'm gonna take you,
I'm gonna shake you,
I'm gonna make you cum.

Swear to God it will get so hot,
it'll melt our faces off.
Then we can see,
The you the me,
Beyond mirrors outside clock.
Held naked in the light,
Held gently,
Held tight,
So soft!
Get Off!
Get Off!
Ball so hard,
We'll smash the walls,
Break the bed,
And crash the floors!
Don't Stop!
Laugh and Scream!
And have the neighbors call the cops!
'till all the eyes that've seen our fire play!!

Mark it down.
Call it Lovers Day!!

Yes here of course there are miracles.
Under your sighs and moans.
I'm gonna take you.
I'm gonna take you.
I'm gonna take you home.

(tv on the radio)

domingo, 7 de março de 2010

dia 5.

seis meses.
ainda o rancor,
feito uma gangorra que sobe alto e alto e alto...
presos em posições diferentes, sem troca de olhares.
eu quase posso tocar o céu?
mas não alcanço os pés no chão, no meu chão.
solução: virar vento...
um vôo até a casa de uivo.
sei refrescar,
aprendi tocando flauta
e minha doçura cansou de brincar de gangorra.
eu acredito em mim:
no meu nome,
no meu corpo,
no meu cheiro.
eu acredito nos que posso carinhar ao ser brisa.
o rancor já não é inimigo,
nem tampouco é amor:
o rancor é passado.
ninguém mais vai doer em mim,
eu que sou vento fazendo rir as margaridas,
volto também a sorrir no voar.
nas tempestades, agarro-me em um guarda-sol
e deixo os guarda-chuvas molhados/mofados para os que têm pouca fé.

quarta-feira, 3 de março de 2010

silêncios e (des)encontros.

Claro que vivíamos bem. Ou ele pensava em mim como eternamente choro?

Conheci Davi embaixo de uma figueira, ele falava de água, mas tinha cheiro de terra. Davi disse que eu era bonita como a lagoa. Minha secura passou e eu desagüei em seu colo. Juntos fomos morada de Cecília e Antônio. Davi cuidava da nossa horta e estudava teoria literária. Eu tentava literatura e vivia antropologia. Eu carregava Davi, Cecília e Antônio para o trabalho de campo; Davi nos mostrava as bibliotecas e seus segredos. Éramos bonitos os quatro, nossa umidade fazia brotar muitas flores. Numa manhã branca, eu, Antônio e Cecília chegamos ao Parque Itaimbé. O velho parque, onde eu queria mostrar as folhas de plátano e ensinar aos pequenos observar as formigas. A grama fofa, eu e as crianças inventando histórias de mata fechada, sacis e caiporas. O chapéu de Antônio voou e ele correu atrás. Eu e minha filha fomos ajudar na captura; é sempre difícil recuperar os chapéus roubados pelo vento Minuano. O chapéu parou perto de um banco com pintura nova, azul e branco. Enquanto eu recolocava o adereço na cabeça de Antônio, reconheci uma pessoa sentada. Era Hernandez, ele lia o jornal.
- Bom dia, Hernandez.
Ele me viu, nos olhamos na manhã branca enquanto as crianças seguravam meu vestido.
- Quanto tempo, Rosa...
Silêncio. Aquele silêncio que apenas era quebrado duas vezes ao ano pelos telefonemas rápidos de feliz aniversário que dávamos um ao outro. De resto, haviam sido anos de sempre silêncio e nenhum encontro.
- Bonitos teus filhos.
- Brigada, disse Cecília, o Antônio é meu mano, mas eu sou mais velha.
Hernandez sorriu.
Cecília era muito metida, embora tivesse medo de uma infinidade de coisas.
Antônio olhava emburrado enquanto chutava a terra, encardindo a pequena sandália.
Hernandez disse que Antônio parecia comigo. O menino segurou mais forte meu vestido.
- É, ele é desconfiado, mas dado às coisas do lirismo. Já Cecília, gosta de cantar, não é mesmo pequena?
- É, mamãe, eu gosto das músicas que falam do mar.
- Bem, Hernandez, nós vamos indo. Bom te ver.
- Bom te ver, Rosa.
Cecília disse tchau, Antônio abanou e segurou o chapéu.
- Vamos ver quem chega primeiro àquela ponte?
- Vamos!, gritaram os dois, imediatamente pondo-se a correr.
Eu olhei para trás. Hernandez estava pálido como a manhã. Percebi que eu ia chorar, e comecei a correr o mais rápido que pude.
- Quem chegar por último é mulher do padre!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Silêncio.
Nada de ar deslocado por falas,
movimento de quase não.
Abrir a boca e apenas expirar.
Um fio de linha azul dança sobre o lençol,
a respiração é a música.
O baile quieto,
o tempo de calmaria.
Nenhum som entre as curvas.
O abrir e fechar dos olhos marcando o ritmo,
o sossego ninando o corpo amansado.
A linha azul que desata seu nó.
Expirar.
Um dedo indicador corta os lábios,
ensina-os a descansar
e a adormecer entreabertos.