domingo, 7 de fevereiro de 2010

sobre apenas eu e a coruja Clarabóia.

Tivemos um problema. Eu e Clarabóia estamos indo embora, moraremos embaixo da figueira gigante de Arambaré. Vamos apenas nós duas. A coruja sentirá saudade do meu ex-esposo..., eu acho que não sentirei. Só sei que a lagoa nos fará bem.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

fragmentos da nossa história com a Clarabóia.

Eu e meu esposo temos uma coruja de estimação, ela se chama Clarabóia. A coruja mora no alto do limoeiro que fica em frente a nossa casa. À noite, Clarabóia voa até o portão e nós duas esperamos meu esposo chegar no ônibus amarelo. Quando das minhas viagens, a coruja espera sozinha, e no meu retorno conta se meu esposo esteve cheirando a conhaque. Nas noites em que ele começa a tocar, eu sento a seus pés, Clarabóia pousa na janela e piscamos uma para outra. Meu esposo se preocupa toda vez que a ave gira o pescoço, tem medo dela se machucar; eu acho graça. Clarabóia não costuma entrar em casa. Entretanto, na semana passada, eu e meu esposo colocamos um papel de parede antiquado na sala da frente, quando terminamos, ela voou, pousou no abajur (desligado, felizmente) e ficou olhando a parede com grandes olhos de coruja em dúvida. Nós três rimos da breguice do papel e depois Clarabóia voltou ao limoeiro. Eu e meu esposo somos um tanto bregas, rimos de comovidos, já a coruja eu não sei.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

arapey.

Esmalte colorido: tentativa de revitalização
eu gostaria de saber/
como foi o seu dia

Olhares temerosos, miradas embotadas,
uma mesa de computador
E se por acaso eu descobrir um ônibus que parta antes de quinta-feira?
E se o carnaval chegar?

Fazer o ar nutrir com leveza aquilo que me compõe
Minhas mãos tremem, como as de minha mãe
Busco ainda ter fé
Tomar banho de chuva com sol (a raposa casaria com quem?)
o sol esquenta a pele e a chuva simula alfinetar, mas não traz dor:
é existir.

As termas del Arapey
hablar, tentativas, como criança
Águas mornas no Uruguai
quando lagartos eram bonitos como pássaros
e se podia temer as descidas de tobogãs.

Rugas,
e ao chegar o novo dia, eu também não me quero arrasada no espelho,
meu caro Cisneros.

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E falem o que quiserem, mas ver o Sérgio Dias tocando Jardim Elétrico foi lindo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

notas de ontem e de hoje.

- Como tu estás magrinha!
- É, a gente emagrece...

As folhas brilhavam do outro lado da vidraça, dia quente; o sopro mais do que morno do sol. Olhei a cicatriz de queimado no punho direito. Revelei fotos, que revelaram cores, ânsia por bromélias e tartarugas, amores-brisa. Despedi-me; morri mais um pouco. Na reunião, ouvi dizerem que estamos fazendo história; desejei apenas escrever histórias para crianças, ambição bem mais honesta. A médica receitou ansiolíticos e disse que ficarei bem. Exercícios de respiração. Comprei um biquíni, esperando a praia a qual logo chega. Neguei convites atraentes: estou sozinha, cansada de encontros, romances, drinks no dance... Chorei o bocadinho de sempre, não, talvez um bocado maior. Fui dormir muito cedo. Aconteceu-me de ser acometida por uma teimosa sensação de solidão durante o sono. Acordei, meio sem acordar, a veneziana deixava entrar filetes de noite e o Centauro declamava poemas em espanhol. Adormeci. O despertador vermelho chamou pro trabalho. Olhei-me no espelho, estava bonita, apesar das olheiras (nuvens de chuva morando sob meus olhos). Eu estava realmente bonita. O vôo baixo das pombas, bater de asas com graça, e eu que sempre tive nojo de pombas. Lastimei Porto Alegre ser tão barulhenta. A pequena senhora que vende rapadura na praça usava um batom vermelho romântico não antes usado, ou não antes notado. Trabalhei um pouco, fui à biblioteca, almocei um sorvete. Voltei ao trabalho cantando lembra quando eu disse que te amava, você fez pouco caso e ainda sorriu... Dor de cabeça, daquelas de antigamente, tão antiga quanto a cantiga. Logo entrarei no ônibus, vou dormir no ninho.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

2 semanas de estranhamento.

semana abafada em Porto Alegre,
vislumbro o não ser daqui como algo recorrente.
pertencimento → apenas objeto de estudo
alteridade/estranhamento:
quais minhas crenças?
sou uma barraca sob a tempestade,
sou a tempestade.
algumas vivências nos exotizam para Nós mesmos: ser agredida fisicamente(severamenteinsanamentecovardemente) por alguém que dizia me amar e me chamava de flor de jardim é uma delas.
agora, tento traduzir-me,
antropóloga em busca do Outro:
outra de mim,
outra mais fraca?
relativizo-me.

domingo, 17 de janeiro de 2010

pedidos.

Ele queria um reco-reco de presente. Uma vez ele tocou reco-reco na beirinha do córrego, mas ela não entrou para a roda de jongo. Nunca soubera dançar, nem por devoção, quebrava os círculos, sempre, com alguns tropeços de iniciante. Ela pediu um coração novo de natal, um lisinho e sem tantos remendos; ganhou um vestido com flamingos e uns óculos divertidos.

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Ela conheceu uma figueira, enormes galhos esparramados, iluminada de verde, como se fosse um toldo de circo com luzes coloridas. Ficou ali por um tempo, saiu antes de tornar-se verde. Ela transformou-se em poucos dias: quase virara pedra, fizeram de tudo para que ela virasse uma pedra a afundar, mas ela teimou em ser brisa e soprar em volta da figueira. Estava apaixonada, queria tocar a figueira de leve a vida toda, arrepiá-la com seu vento. Às vezes, ela acordava agitada, pensando ter voltado a ser pedra e gritava soprando forte. A figueira a acariciava com suas folhas e cantava uma música que uma índia ensinara. A brisa adormecia, protegida, embalada e embalando, e deixava de levantar velhas poeiras, estas sim pesadas como pedra.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010




Aqui existem flamingos,
não os vi, mas sei da sua existência.
Eu viajei muito
- Olhos d’Água -
Os meus olhos?
Uma pequena cidade, lembrou Itaúnas.
Eu sempre me senti mais brisa em pequenos lugares.
Os flamingos são cor de rosa, como meu rosto depois do choro.
Já as unhas dos pés eu pintei de vermelho.
A tia Zita ensinou: é de vermelho que se pintam as unhas dos pés.
Aqui existe um caminho que leva a um sambaqui,
eu suponho.
Quando da chegada, supomos um bocado de coisas:
eu suponho que verei um flamingo da minha janela.
Estou muito ao sul, mais que o costumeiro a minha rosa dos ventos.
Minhas veias marcam caminhos os quais eu percorro,
entre uma pose de flamingo e outra.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

uma flor guilhotinada.
e não foi no País das Maravilhas
lâminas verdadeiras,
seiva jorrando, forte como o sêmen que um dia a alimentou.
uma flor morta,
figura mais triste dentre as figuras tristes.

dias antes, noite de um morno-fresco, vestido azul levantando com o vento soprando contra a moto, ela sentiu cheiro de jasmim quando passavam na baixada do arroio e abraçou forte a cintura dele.

agora este cheiro de jardim apodrecido,
dificuldade em respirar,
receita de analgésicos e ansiolíticos.
uma flor guilhotinada,
regadores chorando sobre um vazio gigante demais para qualquer germinar.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Quintana: - É preciso construir uma torre, uma torre azul para os suicidas.
Bethânia: - Eu ajudo. E que seja bem alta, como minha tristeza que toca o céu. Mas lá no topo eu projeto alguns quartos com camas feitas de nuvem, onde os suicidas sem coragem para o vôo possam adormecer por elas abraçados. Sumir, serem esquecidos, irem esquecendo, destecendo os pedaços amargos dos dias passados até se tornarem apenas casulo. É preciso construir casulos, casulos de nuvem para os suicidas de pouca coragem.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

sobre armários, processos e bolachas integrais...

Ela desanimava todas as manhãs, mal acordava e já desanimava. Ouvira uma história sobre um funcionário público bem intencionado que fora engolido por um processo com mais de 10 volumes. Tinha medo. Os processos acima do peso a assustavam. Dia desses aconteceu um estranho problema na renovação do contrato da senhora que passa o café. O serviço ficou prejudicado, ela quase adormeceu respondendo a um ofício. Também, esses ofícios eram sempre iguais, as respostas também o eram, ela admitia. Mas bem que ela tentava inovar, uma vez desenhara florzinhas na borda do papel. O chefe não assinara; talvez fosse alérgico a flores. Versinhos também o irritavam; nem todos nasceram dados a essas frescuras do lirismo. Desanimava. As divisões, setores e coordenações eram amedrontadores. Ela não conhecia ninguém que trabalhasse em lugar nenhum, era o fulano da divisão tal, o sicrano do setor x e o beltrano coordenador do programa b do governo federal. Será que eles tinham filhos, cachorro, medo de barata, ou aquelas coisas que “só a bailarina que não tem”? O pior: nada funcionava! Quer dizer, o contrato da senhora que passa o café voltou a vigorar, mas de resto, nada funcionava. E quando as coisas não funcionavam, ela acabava se achando cada dia mais gorda na frente do computador. Claro que isso também poderia ser pelas bolachinhas que ela deixava no gaveteiro – sobre os ofícios por responder e os relatórios antropológicos por analisar -, mas eram bolachas integrais. Ela costumava gostar de carimbos, quando criança sempre brincava de secretária e ficava carimbando tudo com o carimbo da mãe. Mas agora tinha um carimbo de antropóloga. “Carimbo” e “Antropóloga” eram duas palavras que não combinavam, soava esquisito. Ela chegava e casa sempre triste, largava a bolsa e choramingava um pouquinho. É que ela sabia que o pesado armário dos processos ia continuar abarrotado, mais e mais. E ela podia fazer tão pouco. E parecia que ele, o armário de ferro, estava se aproximando de sua mesa, cada dia um passo, com ar ameaçador e um sorriso de deboche.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

da canoa.

ando a estourar bolhas de sabão, furta-cor que flutua.
busco estourá-las antes da explosão,
o lançamento do orvalho-detergente-de-cozinha em direção a meus olhos.
caminho atravessando pontes de madeira e mirando os limos das pedras lá embaixo.
eu ganhei uma canoa talhada à mão,
aprenderei a remar como quem aprende a escrever
– a caligrafia dos remos.
cultivo uma desavença comigo mesma
– rego, adubo, podo, e coloco no sol,
a desavença está por florir:
bem-me-quer mal-me-quer bem-me-quer mal-me-quer...
eu não tenho a sabedoria de talhar madeira
e meu desequilíbrio talvez ponha a canoa com medo.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

primavera-verão.

Mas não é que as alergias voltaram com o calor?
E ela que achou estar imune.
Era cedo para esse torpor estar tão próximo, ainda era novembro.
Ela queria refrescar os dias como quem vende sacolé
(ou chup-chups se estivermos no Espírito – agora saudoso – Santo).
Sentia-se rejeitada até pelas máquinas de lavar roupa,
como se as voltas das lavadoras provocassem-lhe, propositalmente, enjôos.
Pintou as unhas,
espirrou,
dobrou a roupa,
espirrou,
leu um pouco,
espirrou.
Era a virada primavera-verão, algo dos ipês de fim de estação.
Cuidar das horas, não se atrasar, comprar um relógio novo, despertar.
Ela anotava também, comprar um ventilador, buscar sempre o frescor que nem sempre encontraria, mas buscar.
Rotações,
repetições,
espirro.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

para si.

Antes, bolinhas coloridas na lapela.
Agora, palavras em preto e branco lamentadas.
O aeroporto está fechado, sem atraso, sem turbulências.
As turbulências faziam parte das viagens – ela sabia – tanto das partidas do sul quanto das partidas do sudeste.
Lembrava do encontro em uma pensão duvidosa no cerrado – sentia saudade.
Lembrava do encontro em uma tarde mais quente que o suportável no Gasômetro – sentia saudade.
O pôr-do-sol ali já não a iluminava como antes.
Lembrava de tantas coisas, promessas: ela prometida, ele entregue.
Era sempre uma dor a mais, sempre uma marca rasgando a carne a mais.
Ela doía nela, ela doía por tudo e pela ausência dela mesma quando ele precisou.
Sangrava, junto com ele, ela sangrava.
Junto com ele, ela se ia, virava cinza a voar pelo céu de Vila Velha, ou de qualquer outra vila.
Sempre soube que um pouco sempre se ia junto.
Mas ela ia muito. Muito de si, de um si que ela nem sabia muito bem o significado.
Eles viveram tão pouco essa coisa de si, era sempre mais do que isso.
Eram sempre sonhos por tantas construções coletivas.
Agora ela só queria ter tido ele um pedacinho mais para si, só para si.
Ela parecia cansada de tanta coletividade.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

saudade.

Deixo agora os textos não postados inspirados no moço-moreno:


Dani-Dani

Ô, moço moreno aí de cima.
Ô, moço bocudo.
Toma banho comigo?
Me leva pela mão até o Gasômetro?
Vai ser divertido.
Vamos ser poligâmicos juntos?
Ué, tá rindo de que?


About me and Cecília IV

Viraremos um cacto. Um só cacto. Terei que dividir até meu eu-cacto contigo. Morri. Pedi que me matassem. Não é um pedido complicado. Nunca é muito complicado. Talvez um dia eu odeie em vez de amar. E acabe com tudo, com nitroglicerina. Talvez Cecília faça tanta coisa. O pirata vai nascer a Cecília. Não duvide. A tulipa ainda chora. A loucura é uma construção social? Gosto do caos. Me leia. Mas não morde minha mão. Quero teu cheiro. Pseudo-vícios. Somos muito criativos, realmente. Pirulitos de coca-cola no meu aniversário. Crianças. Ainda tem as minhas crianças. Canto cantigas de roda. Lembra de me soltar. Odeio gramática. Sou grave. Venta muito nessa cidade. O barulho dá medo. Usar casaco e tomar café é bom. O inverno ainda demora. Já me demorei por aqui. Vou ali comprar cigarros. Ao sair, feche as portas do meu medo.


A teus pés

Presente. Fazia tempo que não me presenteavam. Terapia gratuita. Bom? Não? Não sei. Já tenho minha psiquiatra. Ela não deve mais me agüentar. E quem me agüenta? Pensa um pouco, guria: tu não faz nada que preste. Presteza. Queria cantar. E rodopiar. Quatro dias sem ele. Inferno. Vou me despedir [cansei]. Não é uma disputa justa. Nem é uma disputa. Sarau dos Imaginários. Hunf. Então me desenha, seu merda! Me imagina de verdade [cansei]. Não sou monogâmica, mas te quero por inteiro. Que tu te entregue. Lembra? Lembra eu acordando, com meu cabelo roxo espetado, querendo que tu me comesse. Me desenha assim. Eu vou embora. Mais uma vez. Não pode doer mais do que das outras vezes. Sonhei nós no cinema. Transando no cinema. Sonho bom. Chega de ti. TAZ/ZAT. Eu devia ler menos. E comer mais bolachinha recheada. Devia usar salto alto e ser mais tranqüila. Suck me. Baibe Bê. Maldição antropológica. Gosto de andar de trem.


Mais do pirata/moço-moreno do cerrado

Lost in translation.
Living with you.
Mergulhe em mim.
Inclusive um pirata,
excluindo um poeta.
Elegendo Ilíada.
De quem?
Auto-definição étnica.
Cruzes, no more links,
no more drinks.
Hotel vagabundo.
Eu vagabunda.
Isso, minha coxa direita,
bem forte,
enquanto não vôo.
Atraso.
Turbulência.


Estes, já estavam por aqui:


http://dansesurlamerde.blogspot.com/2007/03/quadriculada.html

http://dansesurlamerde.blogspot.com/2007/02/o-pirata-e-tulipa.html

http://dansesurlamerde.blogspot.com/2008/01/adios.html



São pra ti, mesmo tu estando além daqui, Dani, de algum dia, sobre as coisas da gente.

o moço-moreno se foi.

Sexta (20 de novembro de 2009), eu perdi o meu moço-moreno-do-cerrado, o meu pirata, pirata-navio.
Quando eu e ele, o Daniel Pádua, passamos nossos primeiros dias juntos, ele postou contando/cantando:

NODOS. A arte de conjurar universos.

Foram mais de dois mil quilômetros. Horas a fio, enclausurado no perímetro da poltrona até bastante confortável do ônibus. Chegando lá, perdido na multidão, só um ponto de encontro o guiava. Aquele entre a rua e a água. E no meio de barraquinhas e expectativas, muitas expectativas misturadas, ela inesperava num vestido de vovó, preto com bolinhas coloridas na lapela. Com seu cabelinho punk rebaixado, educada como lhe ensinaram… fazendo questão de disfarçar o brilho nos olhos com um jeitinho do contra que enganava a todos, menos aos que sentiam amor por ela. Por isso, o primeiro abraço foi mais que um abraço, foi uma declaração. “Eu sei quem você é, garota! Ri um pouquinho, vai?” As pernas cansadas vibravam bem dispostas, a cada quilômetro que gastavam juntos. Não fazia sentido pra ninguém, mas como poucas vezes sentiram, o calor do outro bastou. Por poucos dias, foram dois. Eternos, pré-destinados, indispensáveis. Envolvidos sem véus. Sem medo. Todo um novo mundo a se aventurar.

Mas o que ficou foi apenas o reflexo nas lágrimas que compartilharam em despedida, num roçar da pele macia e adorável, de um rosto inesquecível. O rosto da companhia.

O avião deixou ali uma vida inteira.


Eu também já postei por aqui várias marcas que ele deixou. Entramos um na vida do outro, pulando a janela, no ano de 2005 e nos amamos pra sempre. Fomos felizes, sonhamos uma filha, sonhamos largar tudo e fugir juntos, sonhamos andar de mão...
Ele foi assim, um doce, uma brisa livre que me fez aprender a voar livre. O Dani-dani foi um sonho moreno a me chamar de anjinho punk. Agora ele se foi, o Dani se foi. Dói. Dói muito. Os dias serão ainda mais secos no cerrado sem ele. E meus dias também.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

sobre a agência dos não-humanos.

Como se chegar à beira fosse refrescar.
Ela pediu um dia de areia-mar na praia das bromélias, embora não tivesse visto bromélias da última vez.
Estendeu a canga preta com bolinhas brancas que comprara no outro ano, e abriu o guarda-sol colorido tomado emprestado na casa vermelha.
Sozinha, teve dificuldade em fincá-lo na areia.
Um caranguejo beliscou o seu mindinho, a moça se assustou.
O guarda-sol, vendo a falta de jeito dela, ajeitou-se melhor fazendo sombra, sentiu pena.
Sozinha, teve dificuldade em passar o protetor solar nas próprias costas.
O guarda-sol olhou de canto, entretanto, nada pode fazer.
Ela cantarolou Dorival e bateu fotos do guarda-sol, ele sorriu.
Estava mais fresco, sim, estava.
A moça adormeceu sobre a canga/sobre a areia agradecendo o vento que vinha do oceano.
O mar estava parado, era o guarda-sol que gentilmente soprava,
e ele recebeu um olhar terno do pequeno caranguejo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Chove forte,
forte como eu gosto de sentir teu corpo penetrar no meu.
Vejo-te indo, mais pra lá a cada trovoada.
Tu não escuta quando eu chamo
e eu guardo meu riso no bolso do casaco pra que ele não se molhe.
Te guardo também, esperando dias-castelo-de-areia-no-sol.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

piano bar.

Costurava, sempre pontos invertidos, espetava sempre as mesmas marcas na pele fazendo doer.
O gato-xadrez tinha um cheiro guardado, os recortes, retalhos desfiados.
Eu não conseguia nunca sair do piano bar, ouvia as teclas e olhava pra trás e chorava e lembrava e tinha aquela coisa no peito.
Um dia eu tinha achado tudo tão bonito,
e lembro-me de ter beijado teu ombro na primeira noite e tive muito medo da entrega quando já tu fazia parte do meu corpo,
de uma maneira fatal, algo que não se descola sem cortar a carne e sangrar de deixar só fraqueza.
Caminhamos de mão, muito na chuva, torramos boiando no sol e ventamos, sempre muito no choro.
Mas era amor, essa palavra pequena que eu nem sempre entendi, nem sempre achei justa e sempre senti por ti.
Eu construí uma casa, com piano, a casa piano bar, que era pra que tu tocasse a marcha nupcial e também qualquer outra coisa, apertasse as teclas despretensiosamente, que fosse, mas com carinho, mas para mim.
Tu não tocou e a casa piano bar não foi morada, tu não fez morada aqui do meu lado, nem perto, nem nada.
Tu, e era sempre só tu, foi sempre só tu, para mim e para ti.
E eu bato no peito, no meu peito, te mando embora, vai!, te mando embora todos os dias, choro querendo rasgar, arrancar o meu peito e teu nome daqui, mas não sai.
Mesmo tua vida sendo já outra, mesmo eu nunca tendo visto o piano, mesmo sem ver, e já há muito sem ver, teu amor, tua música, teu sorriso (nunca riso desvairado) por mim, eu não consigo descosturar o gato xadrez. Queria, estrebuchá-lo, arrancar tudo meu que os pontos dele prenderam.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

notas de um outubro que ainda dura.

Dias
de sentir dores no útero como quem sente arrepios na nuca,
de trocar publicitários por cientistas sociais,
[anúncios enquadrados]
de apagar números da agenda,
e dos roxos começarem a se tornar esverdeados.

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O café do laguinho:
Eu achei que as águas me suspendiam,
quase um coreto flutuante
e eu flutuava 5 anos mais nova.
Who needs blogs?
Tem dias que eu escrevo em código pra ver se irrito minha enxaqueca.
Os perigos de fazer qualquer coisa na cama.

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Eu não sou nada além de uma jovem [e respeitável?] senhora de 25 anos,
com roxos além da conta para mangas curtas, cavadas e afins.
Ninguém lê este blog.
Ninguém lê as entrelinhas de uma vida ma(r/s)cada.
Eu vejo a usina e não mais trabalho com a devida concentração.
Eu colheria corações partidos, não tivesse sido eu a responsável pelos farelos.
Je suis o que mesmo?
Quem rega o meu jardim?
Anotações de um dia que vai para lá...
[siga a seta. siga o complexo sistema de caráter simbólico o qual ordena sua visão de mundo. adultos do Snoopy: “Bláblábláblábláblá”]
Antropologia de uma nota só.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

primavera no Centauro.

Primavera.
O jardim do Centauro está encantador.
Flores de jardim são mais bonitas que flores do campo?
Flores do campo voam mais longe,
pólen espalhado entre campos (nativos ou não) e resquícios de mata atlântica.
Fantasia de borboleta sem resposta nem purpurina.
Brilho em volta dos olhos: caídos, chorosos, cansados, marotos.
Ela morde os lábios – são vontades.
Espeta o dedo, o sangue-seiva empoçando na concha da mão.
É primavera no jardim do Centauro.
E chove tanto nesse mês de outubro,
temporais da Serra do Sudeste à Depressão Central.
Azaléias recolhidas do chão do parque para a coroa.
Ela ainda pergunta:
- Serei coroada?
E tece, a pequena borboleta desasada tece qualquer coisa – uma asa nova? – com as azaléias.
Enquanto isso, canta:
- “A mariposa triste, coitada, veio ao mundo pra morrer queimada”.
Medo de na verdade ser mariposa iludida de borboleta.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Cecília viu campos com flores amarelas. Alguém lhe disse não gostar de amarelo. E se sentisse saudade? Cecília não sabia se ainda tinha coragem para telefonemas, convites e incertezas. Olhos invertidos a deixaram amarga. Olhos caídos saberiam adoçá-la?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Cecília achou bonito ver emas nas cercanias de Uruguaiana.
Gostou de atravessar a fronteira sozinha – mochileira intergaláctica.
Buenos Aires era cinza (até ela descobrir o Caminito).
Riu ao serem expulsos de bares.
Cecília achou que a Argentina não lhe quis bem.
Pensou em azar – esqueceu de perguntar se os argentinos acreditam em mau-olhado.
Ela temeu os pombos da Plazoleta Julio Cortázar.
Cecília não encontrou a casa de Borges.
Procurou receitas escondidas entre as panelas de Gardel – um regalo para um doce cozinheiro.
Não se encantou por Buenos Aires,
mas um velho taxista cantando-lhe tangos pareceu encantador.
Cecília desejou uma suíte de casal; desejos na Argentina.
Cansou da antropologia e dos antropólogos,
depois des-cansou.
A moça procurou um tênis colombiano para colorir suas pisadas,
mas seu pé era pequeno para as formas argentinas.
Cecília sentiu-se pequena regressando – caminho estranho.
Perdeu-se em algum lugar na volta.
Muita coisa deu errado naquele dia, e ela errava tanto,
sempre.
Chorou sozinha.
Por fim, leu (duas vezes) o Lorca que ganhou.
Sentiu saudade dos passeios acompanhada em Buenos Aires.
Voltando a Santa Maria ou Porto Alegre,
Cecília sorriu ao escutar
“Moriré en Buenos Aires,
será de madrugada,
guardaré mansamente las cosas de vivir,
mi pequeña poesía de adioses y de balas,
mi tabaco, mi tango, mi puñado de esplín”.
Não morreria.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Notas achadas em um minúsculo caderno preto de capa-dura.

III.

Antônio subiu a escada de madeira em passos curtos.

Lá em cima, a porta – chorosa - contou-lhe que tivera um pesadelo:

- Sonhei que tinham me quebrado a maçaneta.

No sótão, o gato dormia abraçado ao guarda-chuva.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Notas achadas em um minúsculo caderno preto de capa-dura.

I.
sentar-se em posição de borboleta,
sem possuir asas?
incompletudes anatômicas para os levantes.
um espaço blindado dentro do corpo,
uma pupa em branco.

riscar.
sentir-se enfastiada
e engordar, engordar, engordar.
ter um rádio transmissor sem comunicar asas.
engodos.
farinha de maizena grudando no céu da boca.

II.
Cecília não vira a dália naqueles dias;
dizia “recitais de cigarras” como se sibilasse.
Cecília arrastava as ondas como colares.
Cruzaram-se em frente a uma vitrine de papelaria;
Cecília piscou os olhos entre um papel-manteiga e outro.
Espreitar equilibrando-se sobre as pedras umedecidas.
- Eu corri, pois meus sapatos faziam barulho de gaivota; tive medo.
Cecília recortou todos os olhos que apareciam nas revistas;
olhos pingentes para os colares de ondas.
Eu não vi a dália aquela noite.

terça-feira, 30 de junho de 2009

notas de um dia meio frio.

Meu tio me ensinou a prever tempestades.
A antropologia me ensinou pouco sobre nativos.
Ariel me ensinou a gostar de Sérgio Sampaio.
Estou aprendendo a morar em cidades cada vez maiores.
Um passageiro disse que as pessoas não têm melhorado.
Eu continuo desenhando quadrados.
Aprendi que sou Nativo, me exotizo.
A Academia me espia de canto de olho.
E eu gosto sempre mais das pequenas timidezes.
Tenho essa gripe constante.
Confundo as palavras como quem toma uma meia branca por outra.
Leio os clássicos e penso em um-pouco-mais-de-menos-academicismo.
Lembro das flores que me tio plantou quando parou de beber.
Eu pesquiso encantados.
As assombrações e os encantes são a minha ciência!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

eu tenho tido muita dor de garganta e pouco tempo para escrever.
mas ando acompanhada de um pequeno sorriso, meio rabugento, mas um sorriso.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

a casa da onça 2.


Fresquinho o lugar,
um círculo de pedras e árvores antigas.
O ruim é eu não me relacionar bem com insetos.
Não peguei a estrada, não acordei a tempo.
Conversas trilha acima.
Uma onça morou aqui,
acho que seu nome era Bernadete.
Escuto a cidade;
Não escuto Bernadete.
Um vento bom nas minhas costas e uma falta de rimas.
Para onde vai quem sobe a trilha?
Os insetos combinam de irritar a única branca no caminho de pedras
e as bolotas começam a surgir
Será que ficarei pintada como Bernadete?

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

a casa da onça.

Cecília não sabe se é a enorme pedra que sustenta a árvore
ou se são as raízes da árvore que seguram a pedra.
Ontem Cecília teria medo daquele murmúrio de vento;
hoje, é o antídoto.
Cecília ajoelha-se no caminho de pedras, pega as folhas úmidas e passei-as pelo corpo;
é a cura.
Ainda está sozinha, mas voltou a respirar.
Os joelhos doem na dureza do caminho de pedras e Cecília sente-os vivos.
Os joelhos e as pedras vivem no corpo de Cecília.
- Gosto das gotas que caem sem contar se moravam nas árvores ou no céu.
Aprendeu a conversar com os musgos.
Cecília passa as folhas pelos mamilos. Cecília ri. Os musgos riem.
Ela abençoa as pedras com suas lambidas.
Cecília adormece com as cantigas dos pequenos macacos.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

notas.

desta vez não esqueci do rabo do elefante.
fotografo com flash azul para ver se desembrutece os dias.
a porta ainda chorava pelo roubo de sua maçaneta quando a olhei; eram apegadas.
a caixa de costura estava atrás da porta, onde não deveria estar.
passei a noite costurando o elefante e espetando os meus dedos.
choveu, e eu empurrei a raiva para um canto, longe dos meus pontos.
assim, em silêncio, coloquei um bandaid na porta, pobrezinha. seu sorriso me fez bem.
talvez as coisas se ajeitem, como quando eu tinha um cachorro de nome Nicolau.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

patins.

Cecília acordou, o quarto quente e fechado lembrou-a de outras cortinas, panos bailando e risos faceiros. Não era dali, não reconhecia aquele espaço dentre suas paisagens da memória. Fotografias espalhadas pela casa que não era dela, tentativas malfadadas de colocar suas formas num apartamento-sufoco. E tinha aquela dor atrás do olho esquerdo, como que se o quisesse expulsar de seu crânio. Por que não reagia? Cecília deitada no quarto abafado, xingar sonolenta era sua máxima ação. Pensou em comprar um sutiã com enchimento, quem sabe ficasse mais respeitável. Não soube falar seu amor na noite passada, não estava num lugar para amores. E se Cecília tentasse escrever cartas anônimas, bilhetes que fossem, sem dono, a serem deixadas pelas paisagens mortas contando-lhes de lugares reais? Ela achava melhor tentar escrever sobre a cidade-sufoco mesmo, talvez assim lhe desse um sentido. Cecília e suas feridas, ela arrancava-lhes as cascas tornando-as mais e mais feias. Dera para isso agora, eram os nervos. Por esses dias ela inventou de comprar uns tais de patins, deslizar por aí, mas a cidade-sufoco estava em reforma, ela não iria muito longe sem tropeçar. “- A gente vai muito longe sem tropeçar?”. Bem, talvez Cecília pudesse mesmo pensar nos patins, mas eu queria dizer-lhe para comprar junto capacete e joelheiras. Não queria que ela tivesse mais feridas para descascar.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Porque eu achei uma minúscula pedrinha que brilhava no chão do meu quarto. Era um motivo de impressionar aqueles que não são assim tão estabanados com as coisas do lirismo. Mas ela achou que era só varrer o chão e fim de página. Não, não, não. Eu tinha que contar de uma maneira suave o quanto doía ficar sozinho no chão de parquet, com brilho ou sem. Exercícios esparsos, mas necessários, de desenhar sapata com restinhos de giz. E sem traduções das expressões carregadas de sul. Parecia mais justo assim, apenas escutar e brincar com o som. Um brilho pequenino, que com o indicador pesquei e coloquei adornando a ponta do nariz. Meu nariz fino. Fiquei uma boniteza de invadir salões de bailes de antigamente. Era só abrir as portas e dançar feito dona baratinha vestidinha de balão. Brilhei em todas as matinês até fazer bolha nos pés e depois sentei de costas pros trilhos do trem. O maquinista me achou mais brilhosa que pó de minério dos vagões da Vale e me ofereceu carona até em casa. Ir para casa e parecer gota de chuva na janela do quarto da minha avó. Ela tricota meias de lãs para o inverno que vem – todos os anos ela tricota um par novo e me dá de presente. Costurei um patuá transparente e coloquei dentro o meu brilho e um raminho de arruda para fazer companhia. E fim da primeira lição para dias mais frescos.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

armário.




Eu ganhei um armário.
Foi a doçura dos últimos dias.

http://diegokernlopes.blogspot.com/2008/10/o-armrio-potico-de-bz.html

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

crepom.

E então, naqueles encantados de um mundo,
entre sacis, caiporas e coriscos, eu me encantei.
Virei mar,
pedaço de concha que corta a sola do pé,
botões amarelos de flor de crepom.
Aquele caminhar entre brejos com sons de farinha.
Amassar, amassar as pegadas,
teu nome,
amassar as pegadas.
Cantoria fina de doer meu botão amarelo.
Mechas de cabelo para marcar os caminhos.
- Um pente verde, mãe d’água?
Ela sentada na canoa, e eu terei sorte.
Amassar o barro para cobrir as paredes.
Uma casa com porta pequena,
uma casa sem saber morar.
Roda e tambor,
tambor de rodar o meu peito fechado e rodado.
Desembaraçar os cabelos para abrir os caminhos.

domingo, 12 de outubro de 2008

remoendas.

Saudade roendo minhas unhas.
Há nas pontas dos dedos um pouco de sangue
Piscar de olhos de martelada em cada porta.
Aqueles vir e não-vir bailando com as minhas saias.
É claro, um tanto mais claro do que o costumeiro às minhas retinas.
E os meus pesares caminham debaixo daquela sombrinha
- tentar escapar do sol.
A fome lambe-me o rosto com tons de carícia
- contornos.
Há na ponta do nariz um ar de Gógol.
E eu me livro de telefones mudos enviando cartas seladas com cuspe.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

lembranças de chimarrão.

Fazia dias, talvez meses, que ela não preparava um mate. Seu pai havia lhe trazido uma grande quantidade de erva quando da visita. Era estranho isso do pai visitar-lhe. Ela não visitava seus pais, ela voltava para casa, simplesmente. Mas o mate, fazia tempo que não fazia um mate. Talvez não visse muito sentido em tomar mate sozinha. E os amigos por ali, bem, eles até tinham boa vontade, mas sempre acabavam por achar amargo, ou quente, ou apenas esquisito. Ela gostava tanto do verde da erva-mate. Lembrava das viagens que fazia com a família, seu pai ia dizendo de que era cada lavoura que passavam pela estrada. O primeiro carro dos seus pais fora uma brasília bege. A brasília tinha buracos no fundo e quando iam de Santa Maria a Encruzilhada do Sul era sempre um suplício o último trecho, depois de Pantano Grande. A partir dali era estrada de chão e o carro enchia-se de poeira, uma poeira também bege que ficava flutuando e fazia o irmão asmático tossir e ela, um pouco menos asmática, espirrar. Depois que deixou de ser criança, se é que sabia demarcar isso temporalmente, ela não compreendeu mais como coubera tanta gente naquela brasília. E seus pais sempre faziam mate para levar durante as viagens. Um dia, já por esses dias, ela tentou explicar a uns amigos que o verde que se via ao viajar pelas estradas do Rio Grande do Sul era diferente do verde que se via nas viagens pelo Espírito Santo. Não conseguiu explicar, ou eles não conseguiram entender (o que talvez fosse exatamente a mesma coisa), e soou como um simples ataque de gauchismo. Mas agora ela se lembrava da erva, do cheiro da erva, de como gostava do mate amargo e de uma pequena cuia que ela e os irmãos herdaram da vó Malvina. Esta não era sua avó realmente, era uma vizinha que morava na casa amarela quase em frente à deles. As unhas da vó Malvina lhe pareciam gigantes, unham gigantes pintadas de vermelho. Fora a primeira senhora que ela vira com unhas pintadas de vermelho. Também fora a primeira pessoa que ela vira morta - o velório na casa amarela. O velório e as unhas vermelhas nunca lhe pareceram assustadores, interessante dar-se conta de como ainda tão pequena conseguira achar aquela cena um tanto pintura. A minúscula cuia que ela e os irmãos herdaram até hoje tinha o mesmo cheiro de velhice da casa amarela. Mas essa cuia estava em casa, ou melhor, na casa de seus pais, que enfim, era sua única casa. Talvez nessa cuia ela até se atrevesse a preparar um mate para tomar sozinha. Eram ambas pequenas, afinal, ela e a cuia, eram ambas passado, e assim lhe pareceria mais justo.

sábado, 5 de julho de 2008

vuelvo al sur.





"Vuelvo al Sur, como se vuelve siempre al amor, vuelvo a vos, con mi deseo, con mi temor. Llevo el Sur, como un destino del corazon, soy del Sur, como los aires del bandoneon. Sueño el Sur, inmensa luna, cielo al reves, busco el Sur, el tiempo abierto, y su despues. Quiero al Sur, su buena gente, su dignidad, siento el Sur, como tu cuerpo en la intimidad. Te quiero Sur, Sur, te quiero. Vuelvo al Sur, como se vuelve siempre al amor, vuelvo a vos, con mi deseo, con mi temor. Quiero al Sur, su buena gente, su dignidad, siento el Sur, como tu cuerpo en la intimidad. Vuelvo al Sur, llevo el Sur, te quiero Sur, te quiero Sur..."






Fernando Solanas.


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minha salvação em piazzolla?

domingo, 22 de junho de 2008

Ele não viu o choro por trás dos óculos nouvelle vague.
Um dia ela parou, equilibrista de meio-fio, e ficou olhando as formigas carregarem as folhas de outono.
Ele não viu.
O piano-bar vazio daquele hotel sem charme nem cardápio francês.
E ele engana com rapidez seus pedidos por amor irrecuperável.
Ela fuma e sente o ar faltar na crise de asma que a falta dele traz.
E ele não vê.
Ele toca no violão músicas que não são pra ela, pois ela não tem a cadência que as composições bonitas exigem.
Os caminhos, um avião antigo, o vôo descabido e sem poesia o qual não se pôde entender.
E a melancolia.
Uma saudade de um cheiro, de um vento Minuano.
O rosto vermelho, a boca rosada sorvendo o mate amargo que não faz sentido no calor do sudeste.
E ele não viu.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

As cores inverossímeis.

Uma viagem ainda mais para o norte. O norte pensado como uma caminhada na beira do córrego.

Ela parece muito leve para ser alcançada por quebranto. Esperava que a promessa de salvação funcionasse.

Compramos uma sacola de feira inconfundível. Bolo de cenoura. Uma térmica com café. Músicas para ouvir no Itaimbé. A sacola de feira ficou gordinha.

Eu acredito em ti. Naquelas noites eu já sentia essa mesma dor brega no peito, mas teu pranto subia mais alto que o meu; eu ia cada vez mais para longe.

“Tu que é excitante”. Na exata hora em que foi pronunciada a frase ela não conseguia ver os lábios dele. “Fiquei sentindo o teu cheiro com a foto”. E isso fez tanto sentido.

Talvez ele a tenha curado. Penso agora que talvez fosse ela quem estava doente. E também ela só sabia chorar naquele tempo. Ela chorava escondida, dentro de gavetas mofadas.

Era tão óbvio como o sol lhes fazia bem novamente.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Andamos durante a noite, falando dos menores estados de ânimo dos quais nos lembrávamos. Ele não olhava como se soubesse alguma coisa de mim; não, parecia que me via apenas agora. E o que fora aquele eterno despertador vermelho? Antiquado, como, aliás, também nós o fomos. O pijama azul: ele esquecera a camisa do pijama azul como quem esquece um pedaço do céu de outono na grama do parque. Lavei, passei, fiz a vida em uma casa que não era minha. Falhei em tantos planos que ele ainda sabe cobrar. Ainda falho em abrir vidros de palmito e algumas conservas. Arrumar as malas, calçar um sapato que não cause bolhas como aquelas do caminhar de ontem à noite, e voar. Ele pede que eu leve algumas coisas na mala. Levo a camisa do pijama e muitos outros itens não encomendados. Levo o que é preciso levar, nada me parece pesar nessa mala.

segunda-feira, 21 de abril de 2008


cheiro.
ela lembra o cheiro sentido por entre a barba-consolo que ele usa.
marcas de mordida – mais roxas que as ostentadas por Natalie Portman naquele curta.
ele olha o calendário.
- Ah, baby.
o “ah” pronunciado lento e o “baby” rapidinho.
ela acha graça.
na entrada do beco, ele finalmente percebe quem é Felisberto Hernandéz.
- Eu também quero um jardim plantado de sombrinhas.
ele diz que eles terão.
ela sussurra que não demora muito a voltar;
escuta a vontade dele de chorar ao telefone.
nunca existiu casal tão bonito por entre aqueles morros:
é a própria poesia caminhando serena pelo parque.
e ainda é apenas outono.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Abril e aqui não faz frio. Mais um ano de estranhamento, dois ao todo. Acho que estou com febre. Talvez jantar damascos não seja assim tão nutritivo. Preciso de nutrientes. Lembra quando tu começou a falar “você”? Aquilo me deixava tão agoniada. Queria ter uma máquina de costura, e saber costurar, claro. Acho que hoje é uma boa noite para beber gim com tônica, esse drink de mulherzinha. E a vida por aí? O céu continua o mais estrelado de todos nas noites limpas? Penso não haver necessidade de definir o que são noites limpas, espero estar correta. É, só de visita. Ainda se oferece chá para as visitas ou saiu de moda? Sabe como é, faz tempo que eu não leio os manuais de etiqueta. Passei na primeira fase apenas, na tua primeira fase. Depois, bem, sabe, era tudo tão solitário e eu tão assustada. Vários sustos, não é? Será bom agora, eu acho. Com esse calor eu até iria para a praia, mas agora, com essa pseudo-febre, talvez não seja uma boa coisa. Deixamos pra mais tarde?

terça-feira, 8 de abril de 2008

http://pontadevista.blogspot.com/2008/04/blog-post.html

Ciprestes, gosto dos ciprestes, apesar de serem sombrios. Hora de ficar por lá. Lá é o único voltar possível. Carolina disse que o dia da minha partida (mais uma vez) seria o dia mais triste de todos. Bom, bom, bom, estar em casa, estar entre os amores. As minhas pessoas: o importante da vida, e só.

domingo, 16 de março de 2008

o vizinho II.

O vizinho ainda não trocou a lâmpada.
Ele usa uma toalha como cortina.
Tivemos dúvida se ele desenhava ou estudava em uma noite dessas.
Eu achei que desenhava,
Priscila pensou que o vizinho estudava.
Não me parece fazer muita diferença agora.
A opção de ficar sem camisa condiz com o país tropical.
O vizinho não olhou mais minhas coxas.
Diário da vizinhança.
O “ainda” e o “não mais” são atemporais nesse caso,
assim como meu sono.
Isso seria um caso?
Um caso de solidão aguda e de transferência para personagens de janelas?
Psicanálise de drops de laranja.
E se eu voltasse a tocar flauta?
Acho que perturbaria os vizinhos.
Firulifirulá.
Quando eu voltar à adolescência usarei meus antigos sapatos laranja do Pateta.
Os vizinhos acharão improvável –
os improváveis acontecimentos da vizinhança.
Posso criar um jornal de parede e contar as fofocas do centro,
sem nenhum interesse em seduzir.
O abrir e fechar de portas do vizinho,
sem nenhum interesse em seduzir?
Será que ele já bateu punheta olhando para minha janela?
Questão a ser feita na seção de variedades do jornal de parede.

quarta-feira, 12 de março de 2008

20/07/2005.

Cuido da Carolina. Bruno pede que eu faça guloseimas. Ando de moletom e pantufa. Cabelo bagunçado. Dona-de-casa inexperiente. Bonitinha. Moderninha. Meu fogão não é Lofra. Não sei o que é páprica. Troco fraldas e dou banho na minha menina. Estudo história e assisto Star Wars com o meu menino. Queimo o negrinho (não é brigadeiro!). Fofoqueio com a Dafne por telefone. Ela passa roupa. Peço que o Bruno acenda a lareira. Novela das seis. Estrelas de giz-de-cera para o nenê. Por fim, panelada de pipoca.

quinta-feira, 6 de março de 2008

As cores dos olhos do moço de preto.
Aquele encontro num repente.
Lembro as noites no coreto –
na primavera, o coreto fica coroado de flores roxas que eu não sei o nome.
Um coreto inventado em uma cidade sem coretos.
Um encontro sem nenhum repente nas margens de um mar poluído de porto.
Roubei as flores roxas de outra cidade –
da minha cidade na boca do monte.
Serei condenada?
Serei coroada?
Dois nãos seguidos,
sem contar os outros.
Uma fila de nãos para mim.
Caixas vazias de cigarro são bons presentes?
Lembro do gosto das frutas –
são diferentes as frutas por aqui.
A janela do quarto fechada.
Algumas vezes as pessoas se fecham fazendo doer nos outros.
Querer 1:
me abrir para as cores dos olhos do moço de preto.
Querer 2 (continuação do querer anterior):
pular a janela e aprender a jogar videogame.
Querer 3 (se os quereres anteriores não passarem do querer):
não querer mais nada por aqui.

sábado, 1 de março de 2008

moi, por danilo.

só o danilo, um garoto que veste camiseta do belle&sebastian quando vai discotecar noite retrô e me faz rir só por fazer, para dizer mais de mim do que eu mesma nesta noite: http://pontadevista.blogspot.com/2008/03/cena-1-com-pouco-sol-e-pouca.html
eu sabia que algo ainda iria acontecer, afinal hoje é sábado.

notícias da semana.

Mya ligou. Voz forte e doce. Confusões pela ilha de lá e pela ilha de cá. Lembro quando esperava a visita da Mya lá no sul. Agora espero. Numa noite dessas um cavalheiro me trouxe para casa debaixo de uma sombrinha de bolinha. Lembrou outono. Numa noite dessas um outro cavalheiro fez cafuné no meu cabelo na beira da praia. Lembrou verão. Roberto convidou para morar junto com ele em Porto Alegre, um dia além de Curtiba. Depois ainda disse: “Seria bom se dois estados não nos separassem”. Dias que demoram a passar. Andei um pouco doente. Andei um pouco apaixonada, paixões daqui e paixões de lá. Depois fiquei com medo, acabei desistindo das paixões. Sonhei com uma festa engraçada no Beco em Porto Alegre. Sonhos de Porto Alegre. Carolina teve febre e não consegui abraçá-la. Quis ter braços maiores. Trabalhei pouco e fiquei muito na cama. Na sexta, tentei festinha aqui em Vitória. Não deu certo mais uma vez. Usei um vestido com um decote lindo nas costas e voltei para casa pensando em outra casa. Combinei de passar em Florianópolis antes de ir para Santa Maria na Páscoa. Rever Mya. Lembrei-nos – eu, Velhinho, Cris e mais pessoas legais – em cima do morro na praia do Campeche. André enviou um poema de Drummond. André enviou tanta doçura naquele envio do poema. Hoje é sábado. E alguma coisa tem que acontecer porque hoje é sábado. Embora isso lembre Vinícius e não Drummond.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

metáforas, Odorico?

Gosto de pensar
a vida que tu leva.
Algo acontecendo
fora daqui.

Tu bebe tequila,
dança indie-rock
passeia no bosque
e tem teu amor.

Sonho tua vida.
Eu, tua narradora
e tua personagem.
Tu existe?
Até qual página?
Escrevo a ti,
inscrevo-me em ti.

Penetra em mim?
(de alguma maneira)
Gosto de ser penetrada,
sinto-me viva.
Queria ser penetrada por ti,
com e sem metáforas.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

o vizinho.

Leve como o que? Eu olhando o vizinho pela janela. O vizinho que cuida das flores da sacada; aqui eles falam varanda. Quase nunca o vejo. Acho que ele cortou o cabelo. Estava sem camisa, agora colocou uma camiseta preta. O vizinho estava me espiando. Eu com as pernas para cima, coxas à mostra, indecente como sempre. Nem tinha percebido. Tem coisas que eu demoro para perceber. E cantando Sérgio Sampaio, enlouquecida. Ai, se eu soubesse que ele estava olhando... Bem, que diferença faria? Será que ele vai sair? Nem tem nada para fazer nessa ilha por hoje, nem nunca. Na verdade eu é que não tenho nada para fazer, já o vizinho, sabe-se lá. Agora ele espiou meio escondido, que engraçado. Achei bonitinho. Dona moça, dona moça, pare de ficar com esses pensamentos bobos. Cuide da vida, da sua, né. Essa moça encanta-se com cada coisa. Eu devia dizer para o vizinho colocar lâmpada econômica no quarto, essa amarela não é nem um pouco ecologicamente correta. Mas esteticamente lhe cai bem aparecer na janela com um fundo amarelado. É, acho que ele vai sair. Que triste. Triste para mim, né. Da próxima vez eu mostro um pouquinho mais as coxas.