quinta-feira, 20 de novembro de 2008

patins.

Cecília acordou, o quarto quente e fechado lembrou-a de outras cortinas, panos bailando e risos faceiros. Não era dali, não reconhecia aquele espaço dentre suas paisagens da memória. Fotografias espalhadas pela casa que não era dela, tentativas malfadadas de colocar suas formas num apartamento-sufoco. E tinha aquela dor atrás do olho esquerdo, como que se o quisesse expulsar de seu crânio. Por que não reagia? Cecília deitada no quarto abafado, xingar sonolenta era sua máxima ação. Pensou em comprar um sutiã com enchimento, quem sabe ficasse mais respeitável. Não soube falar seu amor na noite passada, não estava num lugar para amores. E se Cecília tentasse escrever cartas anônimas, bilhetes que fossem, sem dono, a serem deixadas pelas paisagens mortas contando-lhes de lugares reais? Ela achava melhor tentar escrever sobre a cidade-sufoco mesmo, talvez assim lhe desse um sentido. Cecília e suas feridas, ela arrancava-lhes as cascas tornando-as mais e mais feias. Dera para isso agora, eram os nervos. Por esses dias ela inventou de comprar uns tais de patins, deslizar por aí, mas a cidade-sufoco estava em reforma, ela não iria muito longe sem tropeçar. “- A gente vai muito longe sem tropeçar?”. Bem, talvez Cecília pudesse mesmo pensar nos patins, mas eu queria dizer-lhe para comprar junto capacete e joelheiras. Não queria que ela tivesse mais feridas para descascar.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Porque eu achei uma minúscula pedrinha que brilhava no chão do meu quarto. Era um motivo de impressionar aqueles que não são assim tão estabanados com as coisas do lirismo. Mas ela achou que era só varrer o chão e fim de página. Não, não, não. Eu tinha que contar de uma maneira suave o quanto doía ficar sozinho no chão de parquet, com brilho ou sem. Exercícios esparsos, mas necessários, de desenhar sapata com restinhos de giz. E sem traduções das expressões carregadas de sul. Parecia mais justo assim, apenas escutar e brincar com o som. Um brilho pequenino, que com o indicador pesquei e coloquei adornando a ponta do nariz. Meu nariz fino. Fiquei uma boniteza de invadir salões de bailes de antigamente. Era só abrir as portas e dançar feito dona baratinha vestidinha de balão. Brilhei em todas as matinês até fazer bolha nos pés e depois sentei de costas pros trilhos do trem. O maquinista me achou mais brilhosa que pó de minério dos vagões da Vale e me ofereceu carona até em casa. Ir para casa e parecer gota de chuva na janela do quarto da minha avó. Ela tricota meias de lãs para o inverno que vem – todos os anos ela tricota um par novo e me dá de presente. Costurei um patuá transparente e coloquei dentro o meu brilho e um raminho de arruda para fazer companhia. E fim da primeira lição para dias mais frescos.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

armário.




Eu ganhei um armário.
Foi a doçura dos últimos dias.

http://diegokernlopes.blogspot.com/2008/10/o-armrio-potico-de-bz.html

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

crepom.

E então, naqueles encantados de um mundo,
entre sacis, caiporas e coriscos, eu me encantei.
Virei mar,
pedaço de concha que corta a sola do pé,
botões amarelos de flor de crepom.
Aquele caminhar entre brejos com sons de farinha.
Amassar, amassar as pegadas,
teu nome,
amassar as pegadas.
Cantoria fina de doer meu botão amarelo.
Mechas de cabelo para marcar os caminhos.
- Um pente verde, mãe d’água?
Ela sentada na canoa, e eu terei sorte.
Amassar o barro para cobrir as paredes.
Uma casa com porta pequena,
uma casa sem saber morar.
Roda e tambor,
tambor de rodar o meu peito fechado e rodado.
Desembaraçar os cabelos para abrir os caminhos.

domingo, 12 de outubro de 2008

remoendas.

Saudade roendo minhas unhas.
Há nas pontas dos dedos um pouco de sangue
Piscar de olhos de martelada em cada porta.
Aqueles vir e não-vir bailando com as minhas saias.
É claro, um tanto mais claro do que o costumeiro às minhas retinas.
E os meus pesares caminham debaixo daquela sombrinha
- tentar escapar do sol.
A fome lambe-me o rosto com tons de carícia
- contornos.
Há na ponta do nariz um ar de Gógol.
E eu me livro de telefones mudos enviando cartas seladas com cuspe.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

lembranças de chimarrão.

Fazia dias, talvez meses, que ela não preparava um mate. Seu pai havia lhe trazido uma grande quantidade de erva quando da visita. Era estranho isso do pai visitar-lhe. Ela não visitava seus pais, ela voltava para casa, simplesmente. Mas o mate, fazia tempo que não fazia um mate. Talvez não visse muito sentido em tomar mate sozinha. E os amigos por ali, bem, eles até tinham boa vontade, mas sempre acabavam por achar amargo, ou quente, ou apenas esquisito. Ela gostava tanto do verde da erva-mate. Lembrava das viagens que fazia com a família, seu pai ia dizendo de que era cada lavoura que passavam pela estrada. O primeiro carro dos seus pais fora uma brasília bege. A brasília tinha buracos no fundo e quando iam de Santa Maria a Encruzilhada do Sul era sempre um suplício o último trecho, depois de Pantano Grande. A partir dali era estrada de chão e o carro enchia-se de poeira, uma poeira também bege que ficava flutuando e fazia o irmão asmático tossir e ela, um pouco menos asmática, espirrar. Depois que deixou de ser criança, se é que sabia demarcar isso temporalmente, ela não compreendeu mais como coubera tanta gente naquela brasília. E seus pais sempre faziam mate para levar durante as viagens. Um dia, já por esses dias, ela tentou explicar a uns amigos que o verde que se via ao viajar pelas estradas do Rio Grande do Sul era diferente do verde que se via nas viagens pelo Espírito Santo. Não conseguiu explicar, ou eles não conseguiram entender (o que talvez fosse exatamente a mesma coisa), e soou como um simples ataque de gauchismo. Mas agora ela se lembrava da erva, do cheiro da erva, de como gostava do mate amargo e de uma pequena cuia que ela e os irmãos herdaram da vó Malvina. Esta não era sua avó realmente, era uma vizinha que morava na casa amarela quase em frente à deles. As unhas da vó Malvina lhe pareciam gigantes, unham gigantes pintadas de vermelho. Fora a primeira senhora que ela vira com unhas pintadas de vermelho. Também fora a primeira pessoa que ela vira morta - o velório na casa amarela. O velório e as unhas vermelhas nunca lhe pareceram assustadores, interessante dar-se conta de como ainda tão pequena conseguira achar aquela cena um tanto pintura. A minúscula cuia que ela e os irmãos herdaram até hoje tinha o mesmo cheiro de velhice da casa amarela. Mas essa cuia estava em casa, ou melhor, na casa de seus pais, que enfim, era sua única casa. Talvez nessa cuia ela até se atrevesse a preparar um mate para tomar sozinha. Eram ambas pequenas, afinal, ela e a cuia, eram ambas passado, e assim lhe pareceria mais justo.

sábado, 5 de julho de 2008

vuelvo al sur.





"Vuelvo al Sur, como se vuelve siempre al amor, vuelvo a vos, con mi deseo, con mi temor. Llevo el Sur, como un destino del corazon, soy del Sur, como los aires del bandoneon. Sueño el Sur, inmensa luna, cielo al reves, busco el Sur, el tiempo abierto, y su despues. Quiero al Sur, su buena gente, su dignidad, siento el Sur, como tu cuerpo en la intimidad. Te quiero Sur, Sur, te quiero. Vuelvo al Sur, como se vuelve siempre al amor, vuelvo a vos, con mi deseo, con mi temor. Quiero al Sur, su buena gente, su dignidad, siento el Sur, como tu cuerpo en la intimidad. Vuelvo al Sur, llevo el Sur, te quiero Sur, te quiero Sur..."






Fernando Solanas.


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minha salvação em piazzolla?

domingo, 22 de junho de 2008

Ele não viu o choro por trás dos óculos nouvelle vague.
Um dia ela parou, equilibrista de meio-fio, e ficou olhando as formigas carregarem as folhas de outono.
Ele não viu.
O piano-bar vazio daquele hotel sem charme nem cardápio francês.
E ele engana com rapidez seus pedidos por amor irrecuperável.
Ela fuma e sente o ar faltar na crise de asma que a falta dele traz.
E ele não vê.
Ele toca no violão músicas que não são pra ela, pois ela não tem a cadência que as composições bonitas exigem.
Os caminhos, um avião antigo, o vôo descabido e sem poesia o qual não se pôde entender.
E a melancolia.
Uma saudade de um cheiro, de um vento Minuano.
O rosto vermelho, a boca rosada sorvendo o mate amargo que não faz sentido no calor do sudeste.
E ele não viu.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

As cores inverossímeis.

Uma viagem ainda mais para o norte. O norte pensado como uma caminhada na beira do córrego.

Ela parece muito leve para ser alcançada por quebranto. Esperava que a promessa de salvação funcionasse.

Compramos uma sacola de feira inconfundível. Bolo de cenoura. Uma térmica com café. Músicas para ouvir no Itaimbé. A sacola de feira ficou gordinha.

Eu acredito em ti. Naquelas noites eu já sentia essa mesma dor brega no peito, mas teu pranto subia mais alto que o meu; eu ia cada vez mais para longe.

“Tu que é excitante”. Na exata hora em que foi pronunciada a frase ela não conseguia ver os lábios dele. “Fiquei sentindo o teu cheiro com a foto”. E isso fez tanto sentido.

Talvez ele a tenha curado. Penso agora que talvez fosse ela quem estava doente. E também ela só sabia chorar naquele tempo. Ela chorava escondida, dentro de gavetas mofadas.

Era tão óbvio como o sol lhes fazia bem novamente.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Andamos durante a noite, falando dos menores estados de ânimo dos quais nos lembrávamos. Ele não olhava como se soubesse alguma coisa de mim; não, parecia que me via apenas agora. E o que fora aquele eterno despertador vermelho? Antiquado, como, aliás, também nós o fomos. O pijama azul: ele esquecera a camisa do pijama azul como quem esquece um pedaço do céu de outono na grama do parque. Lavei, passei, fiz a vida em uma casa que não era minha. Falhei em tantos planos que ele ainda sabe cobrar. Ainda falho em abrir vidros de palmito e algumas conservas. Arrumar as malas, calçar um sapato que não cause bolhas como aquelas do caminhar de ontem à noite, e voar. Ele pede que eu leve algumas coisas na mala. Levo a camisa do pijama e muitos outros itens não encomendados. Levo o que é preciso levar, nada me parece pesar nessa mala.

segunda-feira, 21 de abril de 2008


cheiro.
ela lembra o cheiro sentido por entre a barba-consolo que ele usa.
marcas de mordida – mais roxas que as ostentadas por Natalie Portman naquele curta.
ele olha o calendário.
- Ah, baby.
o “ah” pronunciado lento e o “baby” rapidinho.
ela acha graça.
na entrada do beco, ele finalmente percebe quem é Felisberto Hernandéz.
- Eu também quero um jardim plantado de sombrinhas.
ele diz que eles terão.
ela sussurra que não demora muito a voltar;
escuta a vontade dele de chorar ao telefone.
nunca existiu casal tão bonito por entre aqueles morros:
é a própria poesia caminhando serena pelo parque.
e ainda é apenas outono.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Abril e aqui não faz frio. Mais um ano de estranhamento, dois ao todo. Acho que estou com febre. Talvez jantar damascos não seja assim tão nutritivo. Preciso de nutrientes. Lembra quando tu começou a falar “você”? Aquilo me deixava tão agoniada. Queria ter uma máquina de costura, e saber costurar, claro. Acho que hoje é uma boa noite para beber gim com tônica, esse drink de mulherzinha. E a vida por aí? O céu continua o mais estrelado de todos nas noites limpas? Penso não haver necessidade de definir o que são noites limpas, espero estar correta. É, só de visita. Ainda se oferece chá para as visitas ou saiu de moda? Sabe como é, faz tempo que eu não leio os manuais de etiqueta. Passei na primeira fase apenas, na tua primeira fase. Depois, bem, sabe, era tudo tão solitário e eu tão assustada. Vários sustos, não é? Será bom agora, eu acho. Com esse calor eu até iria para a praia, mas agora, com essa pseudo-febre, talvez não seja uma boa coisa. Deixamos pra mais tarde?

terça-feira, 8 de abril de 2008

http://pontadevista.blogspot.com/2008/04/blog-post.html
Ciprestes, gosto dos ciprestes, apesar de serem sombrios. Hora de ficar por lá. Lá é o único voltar possível. Carolina disse que o dia da minha partida (mais uma vez) seria o dia mais triste de todos. Bom, bom, bom, estar em casa, estar entre os amores. As minhas pessoas: o importante da vida, e só.

domingo, 16 de março de 2008

o vizinho II.

O vizinho ainda não trocou a lâmpada.
Ele usa uma toalha como cortina.
Tivemos dúvida se ele desenhava ou estudava em uma noite dessas.
Eu achei que desenhava,
Priscila pensou que o vizinho estudava.
Não me parece fazer muita diferença agora.
A opção de ficar sem camisa condiz com o país tropical.
O vizinho não olhou mais minhas coxas.
Diário da vizinhança.
O “ainda” e o “não mais” são atemporais nesse caso,
assim como meu sono.
Isso seria um caso?
Um caso de solidão aguda e de transferência para personagens de janelas?
Psicanálise de drops de laranja.
E se eu voltasse a tocar flauta?
Acho que perturbaria os vizinhos.
Firulifirulá.
Quando eu voltar à adolescência usarei meus antigos sapatos laranja do Pateta.
Os vizinhos acharão improvável –
os improváveis acontecimentos da vizinhança.
Posso criar um jornal de parede e contar as fofocas do centro,
sem nenhum interesse em seduzir.
O abrir e fechar de portas do vizinho,
sem nenhum interesse em seduzir?
Será que ele já bateu punheta olhando para minha janela?
Questão a ser feita na seção de variedades do jornal de parede.

quarta-feira, 12 de março de 2008

20/07/2005.

Cuido da Carolina. Bruno pede que eu faça guloseimas. Ando de moletom e pantufa. Cabelo bagunçado. Dona-de-casa inexperiente. Bonitinha. Moderninha. Meu fogão não é Lofra. Não sei o que é páprica. Troco fraldas e dou banho na minha menina. Estudo história e assisto Star Wars com o meu menino. Queimo o negrinho (não é brigadeiro!). Fofoqueio com a Dafne por telefone. Ela passa roupa. Peço que o Bruno acenda a lareira. Novela das seis. Estrelas de giz-de-cera para o nenê. Por fim, panelada de pipoca.

quinta-feira, 6 de março de 2008

As cores dos olhos do moço de preto.
Aquele encontro num repente.
Lembro as noites no coreto –
na primavera, o coreto fica coroado de flores roxas que eu não sei o nome.
Um coreto inventado em uma cidade sem coretos.
Um encontro sem nenhum repente nas margens de um mar poluído de porto.
Roubei as flores roxas de outra cidade –
da minha cidade na boca do monte.
Serei condenada?
Serei coroada?
Dois nãos seguidos,
sem contar os outros.
Uma fila de nãos para mim.
Caixas vazias de cigarro são bons presentes?
Lembro do gosto das frutas –
são diferentes as frutas por aqui.
A janela do quarto fechada.
Algumas vezes as pessoas se fecham fazendo doer nos outros.
Querer 1:
me abrir para as cores dos olhos do moço de preto.
Querer 2 (continuação do querer anterior):
pular a janela e aprender a jogar videogame.
Querer 3 (se os quereres anteriores não passarem do querer):
não querer mais nada por aqui.

sábado, 1 de março de 2008

moi, por danilo.

só o danilo, um garoto que veste camiseta do belle&sebastian quando vai discotecar noite retrô e me faz rir só por fazer, para dizer mais de mim do que eu mesma nesta noite: http://pontadevista.blogspot.com/2008/03/cena-1-com-pouco-sol-e-pouca.html
eu sabia que algo ainda iria acontecer, afinal hoje é sábado.

notícias da semana.

Mya ligou. Voz forte e doce. Confusões pela ilha de lá e pela ilha de cá. Lembro quando esperava a visita da Mya lá no sul. Agora espero. Numa noite dessas um cavalheiro me trouxe para casa debaixo de uma sombrinha de bolinha. Lembrou outono. Numa noite dessas um outro cavalheiro fez cafuné no meu cabelo na beira da praia. Lembrou verão. Roberto convidou para morar junto com ele em Porto Alegre, um dia além de Curtiba. Depois ainda disse: “Seria bom se dois estados não nos separassem”. Dias que demoram a passar. Andei um pouco doente. Andei um pouco apaixonada, paixões daqui e paixões de lá. Depois fiquei com medo, acabei desistindo das paixões. Sonhei com uma festa engraçada no Beco em Porto Alegre. Sonhos de Porto Alegre. Carolina teve febre e não consegui abraçá-la. Quis ter braços maiores. Trabalhei pouco e fiquei muito na cama. Na sexta, tentei festinha aqui em Vitória. Não deu certo mais uma vez. Usei um vestido com um decote lindo nas costas e voltei para casa pensando em outra casa. Combinei de passar em Florianópolis antes de ir para Santa Maria na Páscoa. Rever Mya. Lembrei-nos – eu, Velhinho, Cris e mais pessoas legais – em cima do morro na praia do Campeche. André enviou um poema de Drummond. André enviou tanta doçura naquele envio do poema. Hoje é sábado. E alguma coisa tem que acontecer porque hoje é sábado. Embora isso lembre Vinícius e não Drummond.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

metáforas, Odorico?

Gosto de pensar
a vida que tu leva.
Algo acontecendo
fora daqui.

Tu bebe tequila,
dança indie-rock
passeia no bosque
e tem teu amor.

Sonho tua vida.
Eu, tua narradora
e tua personagem.
Tu existe?
Até qual página?
Escrevo a ti,
inscrevo-me em ti.

Penetra em mim?
(de alguma maneira)
Gosto de ser penetrada,
sinto-me viva.
Queria ser penetrada por ti,
com e sem metáforas.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

o vizinho.

Leve como o que? Eu olhando o vizinho pela janela. O vizinho que cuida das flores da sacada; aqui eles falam varanda. Quase nunca o vejo. Acho que ele cortou o cabelo. Estava sem camisa, agora colocou uma camiseta preta. O vizinho estava me espiando. Eu com as pernas para cima, coxas à mostra, indecente como sempre. Nem tinha percebido. Tem coisas que eu demoro para perceber. E cantando Sérgio Sampaio, enlouquecida. Ai, se eu soubesse que ele estava olhando... Bem, que diferença faria? Será que ele vai sair? Nem tem nada para fazer nessa ilha por hoje, nem nunca. Na verdade eu é que não tenho nada para fazer, já o vizinho, sabe-se lá. Agora ele espiou meio escondido, que engraçado. Achei bonitinho. Dona moça, dona moça, pare de ficar com esses pensamentos bobos. Cuide da vida, da sua, né. Essa moça encanta-se com cada coisa. Eu devia dizer para o vizinho colocar lâmpada econômica no quarto, essa amarela não é nem um pouco ecologicamente correta. Mas esteticamente lhe cai bem aparecer na janela com um fundo amarelado. É, acho que ele vai sair. Que triste. Triste para mim, né. Da próxima vez eu mostro um pouquinho mais as coxas.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Era uma segunda de carnaval chuvosa. Ela tentou desenhar por aqueles dias, mas não gostou de nenhum dos desenhos. Ela achou o dia anterior gostoso: de repente eles se fantasiaram e saíram pelo centro, fazendo de conta que eram felizes; foi convincente. Hoje ela deu um telefonema que não deveria ter dado e se sentiu idiota. Não entendia como as pessoas ficavam cruéis de uma hora para outra. Ela nunca gostara de desaparecimentos, achava-os trágicos. Ela não entendia pessoas frias nem pessoas covardes. Mas ela achava que não entendia de muita coisa mesmo. Ela queria poder dizer – “Quer que eu faça um chá com mel pra tu melhorar da gripe?”. E queria que isso pudesse ser entendido como carinho. “Por que ele tem medo de carinho?”, pensava. Para ela, carinho era bom. Para ela, era apenas um gostar e isso não deveria causar tanto temor assim. Pensou em ligar e perguntar “Porra, o que eu te fiz?”. Depois pensou que ninguém lhe devia nenhuma reposta. Mas achou que lhe deviam gentilezas, que lhe deviam sinceridades. Achou também, e achou enfaticamente, que deviam buscar o pote em que lhe trouxeram salada-de-fruta. Ela não queria aquele pote entulhando o armário de sua cozinha. Ela não queria nada entulhando sua vida. E as coisas que não eram de verdade já lhe pareciam apenas entulho.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

ainda sobre não-lugares.

Antônio ia embora naquele dia. Nada de amores platônicos. Ouvira falar que um amor platônico se curava com uma foda homérica. Antônio achava filosofia chato, mas fodas homéricas lhe pareciam interessantes. Antônio odiava pensar que logo estaria no ônibus, um dos não-lugares menos estimulantes que existem. E ainda tinha aquele maldito pó, ou sei lá o que, dos estofados que o faziam espirrar feito um idiota. Espirrar sem parar faz qualquer um parecer idiota. Antônio lembrou de uma vez em que viajava a Porto Alegre com a ex-namorada (foi na época em que ambos rasparam o cabelo para fazer mimetismo de amor à lá Vinícius) e ficaram se tocando no ônibus, com um casaco dela tapando as mãos e o resto. Ela gozou quase em silêncio e depois lhe disse: “Eu sempre soube que me casaria com alguém que me fizesse gozar em um ônibus rumo a Porto Alegre”. Antônio gozou. Não se casaram. Foi a única vez em que um ônibus lhe pareceu estimulante.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

carta a Carlos Contente.

Contente.

Estou escrevendo para dizer que tua expo no Paço Imperial mudou a paisagem. Talvez isso não te importe, enfim, as coisas que escrevo não me devem satisfação, nem a ti. Andei perdida no Rio, sabe. Sempre voava por ali, nas minhas conexões para casa, para o meu sul. Nesses dias resolvi ficar. O centro do Rio lembrou o centro de Porto Alegre e eu me senti menos trêmula. Ando muito trêmula desde que mudei pra Vitória. Tinha medo de achar o Rio parecido com Vitória. Não achei. Mas me senti muito sozinha andando sozinha por lá. É estranho visitar lugares que não me pertencem, que não remetem a histórias nem minhas nem dos meus. Estou parecendo possessiva sem querer parecer assim. A verdade é que tenho andado por aí e passado por muitos não-lugares. Não tenho conseguido marcar nem ser marcada pelas paisagens. Sempre consigo ser marcada pelas histórias que ouço. Eu estava achando o Rio muito bonito. Até me senti feliz quando encontrei por acaso no Aterro do Flamengo as bandas de congo das comunidades de Retiro e de Araçatiba. Foi bom rever as pessoas e sambar-sem-saber-sambar na areia. Mas não era nada do Rio que estava me marcando, eu é que já estou marcada pelas comunidades quilombolas do Espírito Santo. Sempre as histórias que ouço. Mas o que eu quero dizer, é que tu me contou uma história. Tu me contou uma história no Rio de Janeiro. E eu me senti marcada no pouco (na verdade nem tão pouco) tempo em que fiquei na tua/minha sala de exposição. Era a minha sala, sabe. Eu ri ali olhando tudo o que consegui ver e ouvindo as músicas me doendo. Mesmo doendo eu ri. E me achei, me senti menos sozinha. Foi doce sentir a minha amargura encontrando a de alguém que eu nem sei quem é, e concordando com ela em muita coisa. Eu senti menos medo de andar por aí. Gostei de saber que posso encontrar, num repente, num domingo, num antes não-lugar, algum desgostoso (ou vestígios de algum desgostoso) que ainda não perdeu o lirismo. Ah, no domingo mesmo comprei um bloco e voltei a desenhar.

Precisava te contar, mesmo sem saber se tu queria ouvir. Vou publicar essa carta no meu blog (vestígios de adolescência que não quero perder) e quem sabe encaminhar outras pessoas para as tuas/minhas/delas histórias. Obrigada pela tua intromissão na minha vida.

Beijo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Adios

Uma vez eu disse a um pirata:
- Não sou monogâmica, mas te quero por inteiro.
A frase saiu de uma maneira calma.
O pirata entendeu isso; foi um dos poucos.
Interessante como as questões mal resolvidas continuam as mesmas.
Os temores também.
Minhas mãos tremem, sempre.
Eu continuo repetindo a frase que disse àquele pirata; mas para outros salteadores.
Agora penso:
“De cada amor tu herdarás só o cinismo”...
Menos do amor com o CrisK.
Desse amor nós herdamos a doçura e a poesia.
Nem tudo se perde nessas fronteiras do Mercosul.
Tomaremos um mate, dançaremos tango e diremos adios.
E será belo.
Minhas mãos tremem, sempre.
Continuo não entendendo a posse.
A propriedade continua sendo um roubo.
Mas entendo a entrega, duradoura ou não.
E entendo andar de mãos dadas, tremendo ou não.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

davi e cecília - Verão.

Cecília atendeu. Davi ficou fazendo aquilo de repetir o que ela perguntava ao telefone. “Davi, sei que é tu. Onde tu tá, guri?” Na Crystal. Era claro que ele estaria na Crystal. Cecília disse que o encontraria em meia hora. Fazia tempo que Cecília não aparecia por lá, mas o português, dono do boteco, reconheceu-a. Davi estava sentado nas mesas do fundo, nas mesas de ferro que Cecília gostava. Cecília sentiu que Davi ficou surpreso com o próprio encanto demonstrado ao vê-la. Abraço curto. Cecília se esqueceu de marcar no relógio a hora em que se viram. Pediram cerveja. Davi havia chegado à cidade havia duas horas. Ele cumpriu a promessa de que ela seria a primeira pessoa a ser procurada. Cecília contou de um encontro inesperado que tivera com Luciano no aeroporto (não lembrava mais se em Congonhas ou Guarulhos) há um ano: “Luciano quebrou todo o clima hollywoodiano dizendo que eu estava gorda”. Davi reclamou de Luciano e de sua gentileza francesa, e completou, tipicamente: “Tu tá tri gata, Cecília”. Ela achou Davi igual, mais barbudo, mas impressionantemente igual. Saíram da Crystal antes do português avisar que iria fechar. Desceram a pé pela Coronel Niederauer e reclamaram da pastelaria. Nostalgia ao passarem pelo Bar do Garça e concordância de que não tinham mais idade para beber na frente da Parada como antigamente. Nada contra os jovens, apenas haviam perdido a paciência de embriagarem-se com cerveja quente servida em copos plásticos, e sentados no meio fio com as baratas costumeiras da cidade. Entraram no pub; eram burgueses agora. Ninguém esperava que Davi estivesse na cidade. E ninguém esperava que Cecília chegasse com Davi. Mas ninguém comentou nada. Cecília já estava sentindo ciúmes por Davi conversar com os velhos amigos e deixá-la de lado. Não lembram porque, mas uma hora Davi olhou-a, daquele jeito que ela nunca sabia se era debochado ou não, e disse: “Tu é só papo, Cecília. Quer casar comigo agora?”. Cecília odiou ter respondido exatamente como há quase oito anos atrás: “É claro que não”. Ela ficou tonta com o déjà vu. Davi pediu para ir embora com Cecília. A moça queria ainda passar em outro bar; Davi disse que eles não precisavam disso. Cecília precisava. Foram. O lugar estava quente e úmido. Um estranho fotografou o rosto de Cecília enquanto ela comprava uma cerveja. “Retratos metidos a alternativos de pessoas rotuladas como indies”, sentenciou ela em pensamento. Voltou à mesa e disse baixinho a Davi: “Meu ex-marido está aqui”. Davi levou-a embora. A noite estava quente como há muito Cecília não sentia, ao menos não no sul. No quarto não havia ventilador. Deitaram juntos no colchão inflável, irritantemente barulhento. Davi disse coisas incompletas, como sempre o fizera: “Quando eu te vi entrando, Cecília... Tu sabe que é difícil encontrar uma guria como tu... Eu não sei por que eu fiquei sempre tão na defensiva...”. Cecília passou a mão no rosto de Davi e falou: “Mas agora estamos aqui”. Cecília achou-se velha pelo que disse. Por que ela tinha que estar sempre tentando parecer tão madura? Não falaram mais nada durante a noite. Beijaram-se muito. Cecília achou o beijo confortavelmente familiar. Ela sempre gostara do beijo de Davi por achá-lo ingênuo. Ele lhe fez gozar chupando-a calmamente. Davi não gozou. Adormeceram bêbados e grudentos de suor. Cecília acordou logo. O calor deixava-a mole, os mosquitos picavam e Davi roncava um ronco de embriagados. Cecília achou patético ele dormindo assim, sem nem ter tirado a camisinha. Ela tentou acordar Davi por três vezes para dizer-lhe que iria embora. Cecília lembrou que nas poucas vezes as quais dormira na casa de Davi, quando ambos ainda moravam naquela cidade entre os morros, ele sempre reclamara por ela nunca ficar com ele até o meio-dia. Cecília foi embora assim mesmo. Quando saiu do elevador, riu da barata morta no piso. Riu também por se achar agora muito nova, parecendo uma adolescente. Amanhecia abafado. Davi ligou no final da tarde perguntando se estava tudo bem: “É que eu acordei com uma queimadura no dedo do pé. Queria saber se aconteceu alguma coisa bizarra contigo também?”. Não aconteceu, embora Davi fizesse tudo parecer sempre muito surreal. Não se falaram na sexta-feira. Davi ligou no sábado: “Me chama pra fazer qualquer coisa, Cecília, tomar um suco de laranja que seja”. Ela tinha um compromisso. Encontrou Davi bem tarde no bar quente e úmido. Beberam separados; dançaram Cansei de Ser Sexy juntos. Davi levou-a embora. Imitou um tom rodriguiano, passou o braço por cima do ombro dela e disse: “Faz de conta que tu é minha mulher esta noite, Cecília”. Riram. Cecília gostava de como Davi sempre falava o nome dela no final das frases. Atravessaram o Calçadão enquanto ele reclamava que ninguém entendia os sinais e citava Roland Barthes. Riram. Sempre se divertiram juntos. Davi providenciou um ventilador. Ele disse que tinha a noite inteira para fazê-la gozar. Precisou de bem menos tempo do que isso. Davi lembrou que eles haviam transado pouquíssimas vezes um com o outro. Cecília completou: “Pouquíssimas vezes e bêbados”. Ela achou triste quando Davi disse: “Nós passamos esses quase oito anos jogando um com o outro”. Ele falou muitas vezes em como eram jovens quando se conheceram. Cecília chupou Davi e pensou em como sempre achara o pau dele enorme. Ela nunca dissera isso a Davi. Deveria ter dito, e não disse mais uma vez. Dificuldades em colocar a camisinha. Riram. As bobices de sempre. Transa maluca. Dormiram abraçados. Davi quis transar pela manhã; Cecília estava preguiçosa. Ele conseguiu despertá-la. Cecília sentiu um carinho enorme por Davi enquanto se comiam; achou que até o amasse. Quem sabe um dia. Davi iria embora naquela noite, mas não estava melodramático como havia sido durante esses quase oito anos, até inclusive a noite anterior. Davi buscou coca-cola com gelo para Cecília. Ela não quis que ele a acompanhasse até a saída do prédio. Abraçaram-se forte. Ele disse: “Te cuida, Cecília”. Ela abanou quando a porta do elevador abriu. Pensou que os encontros dos dois seriam sempre assim. Achou bom. Ainda estava no elevador quando ouviu o sino da catedral começar a badalar o meio-dia. Cecília sorriu. Davi sorriu. Estava quase tudo igual por ali.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Ninguém estava acreditando naquilo de vida em cor-de-rosa mesmo.
Cecília não tinha certeza do que seu próprio olhar dizia.
A noite quente nem incomodava.
Os olhos invertidos.
Cecília estava sentindo falta daquela paz,
agora ela percebia.
O corpo quente – sentir o amor queimando a pele todos os dias?
“Dá a mão?
Não me olha com os olhos invertidos de quem quer me odiar mas não pode”.
Cecília não conseguiu falar.
Ele era tão lindo.
Ele ainda era o menino mais bonito de qualquer festa.
Dançar pela antiga avenida de madrugada.
Quer?
Cecília sentia-se segura.
“Me esconde aqui, nesse silêncio?”
Cor-de-uva.
Ela lembrou os dois caminhando no inverno.
Geada.
Cecília queria sentir a geada.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Em casa.
Calor, de ser impossível qualquer movimento.
Não sou mais assim. Lembra como era o meu assim?
Manhã morna. Odeio manhãs mornas.
Queria que ele procurasse nos sebos de São Paulo um cartaz de algum filme do Glauber Rocha.
Parênteses para trecho de conversa através de tecnologias da internet.

eu: ai, nem acredito, começou a chover!
amigo no interior do Espírito Santo: sopra daí, pra ver se chega aqui.
eu: não, não quero gastar a minha chuva. deixe-me ser egoísta com ela.
amigo no interior do Espírito Santo: guarde para ti, molhe as pontas dos dedos... mas ao menos traga um copo cheio.

Foi um bonito momento, refrescou o dia.
Mas ainda ele em São Paulo. Mais do que 15 dias, na verdade.
Não estou com medo. Não sou mais assim.
Sei dos trechos da minha vida que estão esburacados. Sei um por um.
Agora sei que deixo os buracos. Eles não devem ser tapados.
Refrescou. Frescurinha.