segunda-feira, 28 de abril de 2008

Andamos durante a noite, falando dos menores estados de ânimo dos quais nos lembrávamos. Ele não olhava como se soubesse alguma coisa de mim; não, parecia que me via apenas agora. E o que fora aquele eterno despertador vermelho? Antiquado, como, aliás, também nós o fomos. O pijama azul: ele esquecera a camisa do pijama azul como quem esquece um pedaço do céu de outono na grama do parque. Lavei, passei, fiz a vida em uma casa que não era minha. Falhei em tantos planos que ele ainda sabe cobrar. Ainda falho em abrir vidros de palmito e algumas conservas. Arrumar as malas, calçar um sapato que não cause bolhas como aquelas do caminhar de ontem à noite, e voar. Ele pede que eu leve algumas coisas na mala. Levo a camisa do pijama e muitos outros itens não encomendados. Levo o que é preciso levar, nada me parece pesar nessa mala.

segunda-feira, 21 de abril de 2008


cheiro.
ela lembra o cheiro sentido por entre a barba-consolo que ele usa.
marcas de mordida – mais roxas que as ostentadas por Natalie Portman naquele curta.
ele olha o calendário.
- Ah, baby.
o “ah” pronunciado lento e o “baby” rapidinho.
ela acha graça.
na entrada do beco, ele finalmente percebe quem é Felisberto Hernandéz.
- Eu também quero um jardim plantado de sombrinhas.
ele diz que eles terão.
ela sussurra que não demora muito a voltar;
escuta a vontade dele de chorar ao telefone.
nunca existiu casal tão bonito por entre aqueles morros:
é a própria poesia caminhando serena pelo parque.
e ainda é apenas outono.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Abril e aqui não faz frio. Mais um ano de estranhamento, dois ao todo. Acho que estou com febre. Talvez jantar damascos não seja assim tão nutritivo. Preciso de nutrientes. Lembra quando tu começou a falar “você”? Aquilo me deixava tão agoniada. Queria ter uma máquina de costura, e saber costurar, claro. Acho que hoje é uma boa noite para beber gim com tônica, esse drink de mulherzinha. E a vida por aí? O céu continua o mais estrelado de todos nas noites limpas? Penso não haver necessidade de definir o que são noites limpas, espero estar correta. É, só de visita. Ainda se oferece chá para as visitas ou saiu de moda? Sabe como é, faz tempo que eu não leio os manuais de etiqueta. Passei na primeira fase apenas, na tua primeira fase. Depois, bem, sabe, era tudo tão solitário e eu tão assustada. Vários sustos, não é? Será bom agora, eu acho. Com esse calor eu até iria para a praia, mas agora, com essa pseudo-febre, talvez não seja uma boa coisa. Deixamos pra mais tarde?

terça-feira, 8 de abril de 2008

http://pontadevista.blogspot.com/2008/04/blog-post.html
Ciprestes, gosto dos ciprestes, apesar de serem sombrios. Hora de ficar por lá. Lá é o único voltar possível. Carolina disse que o dia da minha partida (mais uma vez) seria o dia mais triste de todos. Bom, bom, bom, estar em casa, estar entre os amores. As minhas pessoas: o importante da vida, e só.

domingo, 16 de março de 2008

o vizinho II.

O vizinho ainda não trocou a lâmpada.
Ele usa uma toalha como cortina.
Tivemos dúvida se ele desenhava ou estudava em uma noite dessas.
Eu achei que desenhava,
Priscila pensou que o vizinho estudava.
Não me parece fazer muita diferença agora.
A opção de ficar sem camisa condiz com o país tropical.
O vizinho não olhou mais minhas coxas.
Diário da vizinhança.
O “ainda” e o “não mais” são atemporais nesse caso,
assim como meu sono.
Isso seria um caso?
Um caso de solidão aguda e de transferência para personagens de janelas?
Psicanálise de drops de laranja.
E se eu voltasse a tocar flauta?
Acho que perturbaria os vizinhos.
Firulifirulá.
Quando eu voltar à adolescência usarei meus antigos sapatos laranja do Pateta.
Os vizinhos acharão improvável –
os improváveis acontecimentos da vizinhança.
Posso criar um jornal de parede e contar as fofocas do centro,
sem nenhum interesse em seduzir.
O abrir e fechar de portas do vizinho,
sem nenhum interesse em seduzir?
Será que ele já bateu punheta olhando para minha janela?
Questão a ser feita na seção de variedades do jornal de parede.

quarta-feira, 12 de março de 2008

20/07/2005.

Cuido da Carolina. Bruno pede que eu faça guloseimas. Ando de moletom e pantufa. Cabelo bagunçado. Dona-de-casa inexperiente. Bonitinha. Moderninha. Meu fogão não é Lofra. Não sei o que é páprica. Troco fraldas e dou banho na minha menina. Estudo história e assisto Star Wars com o meu menino. Queimo o negrinho (não é brigadeiro!). Fofoqueio com a Dafne por telefone. Ela passa roupa. Peço que o Bruno acenda a lareira. Novela das seis. Estrelas de giz-de-cera para o nenê. Por fim, panelada de pipoca.

quinta-feira, 6 de março de 2008

As cores dos olhos do moço de preto.
Aquele encontro num repente.
Lembro as noites no coreto –
na primavera, o coreto fica coroado de flores roxas que eu não sei o nome.
Um coreto inventado em uma cidade sem coretos.
Um encontro sem nenhum repente nas margens de um mar poluído de porto.
Roubei as flores roxas de outra cidade –
da minha cidade na boca do monte.
Serei condenada?
Serei coroada?
Dois nãos seguidos,
sem contar os outros.
Uma fila de nãos para mim.
Caixas vazias de cigarro são bons presentes?
Lembro do gosto das frutas –
são diferentes as frutas por aqui.
A janela do quarto fechada.
Algumas vezes as pessoas se fecham fazendo doer nos outros.
Querer 1:
me abrir para as cores dos olhos do moço de preto.
Querer 2 (continuação do querer anterior):
pular a janela e aprender a jogar videogame.
Querer 3 (se os quereres anteriores não passarem do querer):
não querer mais nada por aqui.

sábado, 1 de março de 2008

moi, por danilo.

só o danilo, um garoto que veste camiseta do belle&sebastian quando vai discotecar noite retrô e me faz rir só por fazer, para dizer mais de mim do que eu mesma nesta noite: http://pontadevista.blogspot.com/2008/03/cena-1-com-pouco-sol-e-pouca.html
eu sabia que algo ainda iria acontecer, afinal hoje é sábado.

notícias da semana.

Mya ligou. Voz forte e doce. Confusões pela ilha de lá e pela ilha de cá. Lembro quando esperava a visita da Mya lá no sul. Agora espero. Numa noite dessas um cavalheiro me trouxe para casa debaixo de uma sombrinha de bolinha. Lembrou outono. Numa noite dessas um outro cavalheiro fez cafuné no meu cabelo na beira da praia. Lembrou verão. Roberto convidou para morar junto com ele em Porto Alegre, um dia além de Curtiba. Depois ainda disse: “Seria bom se dois estados não nos separassem”. Dias que demoram a passar. Andei um pouco doente. Andei um pouco apaixonada, paixões daqui e paixões de lá. Depois fiquei com medo, acabei desistindo das paixões. Sonhei com uma festa engraçada no Beco em Porto Alegre. Sonhos de Porto Alegre. Carolina teve febre e não consegui abraçá-la. Quis ter braços maiores. Trabalhei pouco e fiquei muito na cama. Na sexta, tentei festinha aqui em Vitória. Não deu certo mais uma vez. Usei um vestido com um decote lindo nas costas e voltei para casa pensando em outra casa. Combinei de passar em Florianópolis antes de ir para Santa Maria na Páscoa. Rever Mya. Lembrei-nos – eu, Velhinho, Cris e mais pessoas legais – em cima do morro na praia do Campeche. André enviou um poema de Drummond. André enviou tanta doçura naquele envio do poema. Hoje é sábado. E alguma coisa tem que acontecer porque hoje é sábado. Embora isso lembre Vinícius e não Drummond.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

metáforas, Odorico?

Gosto de pensar
a vida que tu leva.
Algo acontecendo
fora daqui.

Tu bebe tequila,
dança indie-rock
passeia no bosque
e tem teu amor.

Sonho tua vida.
Eu, tua narradora
e tua personagem.
Tu existe?
Até qual página?
Escrevo a ti,
inscrevo-me em ti.

Penetra em mim?
(de alguma maneira)
Gosto de ser penetrada,
sinto-me viva.
Queria ser penetrada por ti,
com e sem metáforas.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

o vizinho.

Leve como o que? Eu olhando o vizinho pela janela. O vizinho que cuida das flores da sacada; aqui eles falam varanda. Quase nunca o vejo. Acho que ele cortou o cabelo. Estava sem camisa, agora colocou uma camiseta preta. O vizinho estava me espiando. Eu com as pernas para cima, coxas à mostra, indecente como sempre. Nem tinha percebido. Tem coisas que eu demoro para perceber. E cantando Sérgio Sampaio, enlouquecida. Ai, se eu soubesse que ele estava olhando... Bem, que diferença faria? Será que ele vai sair? Nem tem nada para fazer nessa ilha por hoje, nem nunca. Na verdade eu é que não tenho nada para fazer, já o vizinho, sabe-se lá. Agora ele espiou meio escondido, que engraçado. Achei bonitinho. Dona moça, dona moça, pare de ficar com esses pensamentos bobos. Cuide da vida, da sua, né. Essa moça encanta-se com cada coisa. Eu devia dizer para o vizinho colocar lâmpada econômica no quarto, essa amarela não é nem um pouco ecologicamente correta. Mas esteticamente lhe cai bem aparecer na janela com um fundo amarelado. É, acho que ele vai sair. Que triste. Triste para mim, né. Da próxima vez eu mostro um pouquinho mais as coxas.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Era uma segunda de carnaval chuvosa. Ela tentou desenhar por aqueles dias, mas não gostou de nenhum dos desenhos. Ela achou o dia anterior gostoso: de repente eles se fantasiaram e saíram pelo centro, fazendo de conta que eram felizes; foi convincente. Hoje ela deu um telefonema que não deveria ter dado e se sentiu idiota. Não entendia como as pessoas ficavam cruéis de uma hora para outra. Ela nunca gostara de desaparecimentos, achava-os trágicos. Ela não entendia pessoas frias nem pessoas covardes. Mas ela achava que não entendia de muita coisa mesmo. Ela queria poder dizer – “Quer que eu faça um chá com mel pra tu melhorar da gripe?”. E queria que isso pudesse ser entendido como carinho. “Por que ele tem medo de carinho?”, pensava. Para ela, carinho era bom. Para ela, era apenas um gostar e isso não deveria causar tanto temor assim. Pensou em ligar e perguntar “Porra, o que eu te fiz?”. Depois pensou que ninguém lhe devia nenhuma reposta. Mas achou que lhe deviam gentilezas, que lhe deviam sinceridades. Achou também, e achou enfaticamente, que deviam buscar o pote em que lhe trouxeram salada-de-fruta. Ela não queria aquele pote entulhando o armário de sua cozinha. Ela não queria nada entulhando sua vida. E as coisas que não eram de verdade já lhe pareciam apenas entulho.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

ainda sobre não-lugares.

Antônio ia embora naquele dia. Nada de amores platônicos. Ouvira falar que um amor platônico se curava com uma foda homérica. Antônio achava filosofia chato, mas fodas homéricas lhe pareciam interessantes. Antônio odiava pensar que logo estaria no ônibus, um dos não-lugares menos estimulantes que existem. E ainda tinha aquele maldito pó, ou sei lá o que, dos estofados que o faziam espirrar feito um idiota. Espirrar sem parar faz qualquer um parecer idiota. Antônio lembrou de uma vez em que viajava a Porto Alegre com a ex-namorada (foi na época em que ambos rasparam o cabelo para fazer mimetismo de amor à lá Vinícius) e ficaram se tocando no ônibus, com um casaco dela tapando as mãos e o resto. Ela gozou quase em silêncio e depois lhe disse: “Eu sempre soube que me casaria com alguém que me fizesse gozar em um ônibus rumo a Porto Alegre”. Antônio gozou. Não se casaram. Foi a única vez em que um ônibus lhe pareceu estimulante.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

carta a Carlos Contente.

Contente.

Estou escrevendo para dizer que tua expo no Paço Imperial mudou a paisagem. Talvez isso não te importe, enfim, as coisas que escrevo não me devem satisfação, nem a ti. Andei perdida no Rio, sabe. Sempre voava por ali, nas minhas conexões para casa, para o meu sul. Nesses dias resolvi ficar. O centro do Rio lembrou o centro de Porto Alegre e eu me senti menos trêmula. Ando muito trêmula desde que mudei pra Vitória. Tinha medo de achar o Rio parecido com Vitória. Não achei. Mas me senti muito sozinha andando sozinha por lá. É estranho visitar lugares que não me pertencem, que não remetem a histórias nem minhas nem dos meus. Estou parecendo possessiva sem querer parecer assim. A verdade é que tenho andado por aí e passado por muitos não-lugares. Não tenho conseguido marcar nem ser marcada pelas paisagens. Sempre consigo ser marcada pelas histórias que ouço. Eu estava achando o Rio muito bonito. Até me senti feliz quando encontrei por acaso no Aterro do Flamengo as bandas de congo das comunidades de Retiro e de Araçatiba. Foi bom rever as pessoas e sambar-sem-saber-sambar na areia. Mas não era nada do Rio que estava me marcando, eu é que já estou marcada pelas comunidades quilombolas do Espírito Santo. Sempre as histórias que ouço. Mas o que eu quero dizer, é que tu me contou uma história. Tu me contou uma história no Rio de Janeiro. E eu me senti marcada no pouco (na verdade nem tão pouco) tempo em que fiquei na tua/minha sala de exposição. Era a minha sala, sabe. Eu ri ali olhando tudo o que consegui ver e ouvindo as músicas me doendo. Mesmo doendo eu ri. E me achei, me senti menos sozinha. Foi doce sentir a minha amargura encontrando a de alguém que eu nem sei quem é, e concordando com ela em muita coisa. Eu senti menos medo de andar por aí. Gostei de saber que posso encontrar, num repente, num domingo, num antes não-lugar, algum desgostoso (ou vestígios de algum desgostoso) que ainda não perdeu o lirismo. Ah, no domingo mesmo comprei um bloco e voltei a desenhar.

Precisava te contar, mesmo sem saber se tu queria ouvir. Vou publicar essa carta no meu blog (vestígios de adolescência que não quero perder) e quem sabe encaminhar outras pessoas para as tuas/minhas/delas histórias. Obrigada pela tua intromissão na minha vida.

Beijo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Adios

Uma vez eu disse a um pirata:
- Não sou monogâmica, mas te quero por inteiro.
A frase saiu de uma maneira calma.
O pirata entendeu isso; foi um dos poucos.
Interessante como as questões mal resolvidas continuam as mesmas.
Os temores também.
Minhas mãos tremem, sempre.
Eu continuo repetindo a frase que disse àquele pirata; mas para outros salteadores.
Agora penso:
“De cada amor tu herdarás só o cinismo”...
Menos do amor com o CrisK.
Desse amor nós herdamos a doçura e a poesia.
Nem tudo se perde nessas fronteiras do Mercosul.
Tomaremos um mate, dançaremos tango e diremos adios.
E será belo.
Minhas mãos tremem, sempre.
Continuo não entendendo a posse.
A propriedade continua sendo um roubo.
Mas entendo a entrega, duradoura ou não.
E entendo andar de mãos dadas, tremendo ou não.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

davi e cecília - Verão.

Cecília atendeu. Davi ficou fazendo aquilo de repetir o que ela perguntava ao telefone. “Davi, sei que é tu. Onde tu tá, guri?” Na Crystal. Era claro que ele estaria na Crystal. Cecília disse que o encontraria em meia hora. Fazia tempo que Cecília não aparecia por lá, mas o português, dono do boteco, reconheceu-a. Davi estava sentado nas mesas do fundo, nas mesas de ferro que Cecília gostava. Cecília sentiu que Davi ficou surpreso com o próprio encanto demonstrado ao vê-la. Abraço curto. Cecília se esqueceu de marcar no relógio a hora em que se viram. Pediram cerveja. Davi havia chegado à cidade havia duas horas. Ele cumpriu a promessa de que ela seria a primeira pessoa a ser procurada. Cecília contou de um encontro inesperado que tivera com Luciano no aeroporto (não lembrava mais se em Congonhas ou Guarulhos) há um ano: “Luciano quebrou todo o clima hollywoodiano dizendo que eu estava gorda”. Davi reclamou de Luciano e de sua gentileza francesa, e completou, tipicamente: “Tu tá tri gata, Cecília”. Ela achou Davi igual, mais barbudo, mas impressionantemente igual. Saíram da Crystal antes do português avisar que iria fechar. Desceram a pé pela Coronel Niederauer e reclamaram da pastelaria. Nostalgia ao passarem pelo Bar do Garça e concordância de que não tinham mais idade para beber na frente da Parada como antigamente. Nada contra os jovens, apenas haviam perdido a paciência de embriagarem-se com cerveja quente servida em copos plásticos, e sentados no meio fio com as baratas costumeiras da cidade. Entraram no pub; eram burgueses agora. Ninguém esperava que Davi estivesse na cidade. E ninguém esperava que Cecília chegasse com Davi. Mas ninguém comentou nada. Cecília já estava sentindo ciúmes por Davi conversar com os velhos amigos e deixá-la de lado. Não lembram porque, mas uma hora Davi olhou-a, daquele jeito que ela nunca sabia se era debochado ou não, e disse: “Tu é só papo, Cecília. Quer casar comigo agora?”. Cecília odiou ter respondido exatamente como há quase oito anos atrás: “É claro que não”. Ela ficou tonta com o déjà vu. Davi pediu para ir embora com Cecília. A moça queria ainda passar em outro bar; Davi disse que eles não precisavam disso. Cecília precisava. Foram. O lugar estava quente e úmido. Um estranho fotografou o rosto de Cecília enquanto ela comprava uma cerveja. “Retratos metidos a alternativos de pessoas rotuladas como indies”, sentenciou ela em pensamento. Voltou à mesa e disse baixinho a Davi: “Meu ex-marido está aqui”. Davi levou-a embora. A noite estava quente como há muito Cecília não sentia, ao menos não no sul. No quarto não havia ventilador. Deitaram juntos no colchão inflável, irritantemente barulhento. Davi disse coisas incompletas, como sempre o fizera: “Quando eu te vi entrando, Cecília... Tu sabe que é difícil encontrar uma guria como tu... Eu não sei por que eu fiquei sempre tão na defensiva...”. Cecília passou a mão no rosto de Davi e falou: “Mas agora estamos aqui”. Cecília achou-se velha pelo que disse. Por que ela tinha que estar sempre tentando parecer tão madura? Não falaram mais nada durante a noite. Beijaram-se muito. Cecília achou o beijo confortavelmente familiar. Ela sempre gostara do beijo de Davi por achá-lo ingênuo. Ele lhe fez gozar chupando-a calmamente. Davi não gozou. Adormeceram bêbados e grudentos de suor. Cecília acordou logo. O calor deixava-a mole, os mosquitos picavam e Davi roncava um ronco de embriagados. Cecília achou patético ele dormindo assim, sem nem ter tirado a camisinha. Ela tentou acordar Davi por três vezes para dizer-lhe que iria embora. Cecília lembrou que nas poucas vezes as quais dormira na casa de Davi, quando ambos ainda moravam naquela cidade entre os morros, ele sempre reclamara por ela nunca ficar com ele até o meio-dia. Cecília foi embora assim mesmo. Quando saiu do elevador, riu da barata morta no piso. Riu também por se achar agora muito nova, parecendo uma adolescente. Amanhecia abafado. Davi ligou no final da tarde perguntando se estava tudo bem: “É que eu acordei com uma queimadura no dedo do pé. Queria saber se aconteceu alguma coisa bizarra contigo também?”. Não aconteceu, embora Davi fizesse tudo parecer sempre muito surreal. Não se falaram na sexta-feira. Davi ligou no sábado: “Me chama pra fazer qualquer coisa, Cecília, tomar um suco de laranja que seja”. Ela tinha um compromisso. Encontrou Davi bem tarde no bar quente e úmido. Beberam separados; dançaram Cansei de Ser Sexy juntos. Davi levou-a embora. Imitou um tom rodriguiano, passou o braço por cima do ombro dela e disse: “Faz de conta que tu é minha mulher esta noite, Cecília”. Riram. Cecília gostava de como Davi sempre falava o nome dela no final das frases. Atravessaram o Calçadão enquanto ele reclamava que ninguém entendia os sinais e citava Roland Barthes. Riram. Sempre se divertiram juntos. Davi providenciou um ventilador. Ele disse que tinha a noite inteira para fazê-la gozar. Precisou de bem menos tempo do que isso. Davi lembrou que eles haviam transado pouquíssimas vezes um com o outro. Cecília completou: “Pouquíssimas vezes e bêbados”. Ela achou triste quando Davi disse: “Nós passamos esses quase oito anos jogando um com o outro”. Ele falou muitas vezes em como eram jovens quando se conheceram. Cecília chupou Davi e pensou em como sempre achara o pau dele enorme. Ela nunca dissera isso a Davi. Deveria ter dito, e não disse mais uma vez. Dificuldades em colocar a camisinha. Riram. As bobices de sempre. Transa maluca. Dormiram abraçados. Davi quis transar pela manhã; Cecília estava preguiçosa. Ele conseguiu despertá-la. Cecília sentiu um carinho enorme por Davi enquanto se comiam; achou que até o amasse. Quem sabe um dia. Davi iria embora naquela noite, mas não estava melodramático como havia sido durante esses quase oito anos, até inclusive a noite anterior. Davi buscou coca-cola com gelo para Cecília. Ela não quis que ele a acompanhasse até a saída do prédio. Abraçaram-se forte. Ele disse: “Te cuida, Cecília”. Ela abanou quando a porta do elevador abriu. Pensou que os encontros dos dois seriam sempre assim. Achou bom. Ainda estava no elevador quando ouviu o sino da catedral começar a badalar o meio-dia. Cecília sorriu. Davi sorriu. Estava quase tudo igual por ali.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Ninguém estava acreditando naquilo de vida em cor-de-rosa mesmo.
Cecília não tinha certeza do que seu próprio olhar dizia.
A noite quente nem incomodava.
Os olhos invertidos.
Cecília estava sentindo falta daquela paz,
agora ela percebia.
O corpo quente – sentir o amor queimando a pele todos os dias?
“Dá a mão?
Não me olha com os olhos invertidos de quem quer me odiar mas não pode”.
Cecília não conseguiu falar.
Ele era tão lindo.
Ele ainda era o menino mais bonito de qualquer festa.
Dançar pela antiga avenida de madrugada.
Quer?
Cecília sentia-se segura.
“Me esconde aqui, nesse silêncio?”
Cor-de-uva.
Ela lembrou os dois caminhando no inverno.
Geada.
Cecília queria sentir a geada.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Em casa.
Calor, de ser impossível qualquer movimento.
Não sou mais assim. Lembra como era o meu assim?
Manhã morna. Odeio manhãs mornas.
Queria que ele procurasse nos sebos de São Paulo um cartaz de algum filme do Glauber Rocha.
Parênteses para trecho de conversa através de tecnologias da internet.

eu: ai, nem acredito, começou a chover!
amigo no interior do Espírito Santo: sopra daí, pra ver se chega aqui.
eu: não, não quero gastar a minha chuva. deixe-me ser egoísta com ela.
amigo no interior do Espírito Santo: guarde para ti, molhe as pontas dos dedos... mas ao menos traga um copo cheio.

Foi um bonito momento, refrescou o dia.
Mas ainda ele em São Paulo. Mais do que 15 dias, na verdade.
Não estou com medo. Não sou mais assim.
Sei dos trechos da minha vida que estão esburacados. Sei um por um.
Agora sei que deixo os buracos. Eles não devem ser tapados.
Refrescou. Frescurinha.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

minha noite em cor-de-rosa.

Ele disse que eu parecia ter uns 25 anos.
“Ora essa!”, respondi do alto dos meus 23.
Ontem, ele trouxe salada de fruta, e beijou-me sabor tutti-frutti.
Concordei com ele sobre arte, e achei estranho.
Nunca concordo com ninguém sobre isso; talvez, sobre quase nada.
O cafuné no meu cabelo rosa deixou a mão dele colorida.
Doçura.
Bobice.
Vontade de ficar perto.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Carta a Cecília.

Lembras, Cecília, de quando éramos colegas de francês? Tínhamos um colega chileno, um senhor magro, de barba branca... Eu gostava do relógio de bolso que ele usava. Não sei por que me lembrei dele. De ti eu sempre lembro, Cecília, do teu riso desvairado e do teu cheiro de maracujá. Quanto tempo desde nosso último passeio no Parque Itaimbé... Lembra os ipês, Cecília? Nós sim é que sabíamos escutar os ipês. Como tu ficavas linda com aquelas flores enfeitando o cabelo. Saudade de ouvir tua poesia; nós duas deitadas sobre aquele tapete colorido. Mas o bater de asas é assim, Cecília, leva-nos para outros mundos, para outros corpos, para outras flores. É um barulho gostoso, pequena, apesar da saudade que as asas nunca levam junto. Por aqui quase não há ipês, Cecília. E os poucos que encontrei não falam. Será que falariam contigo? Ontem eu recebi uma ligação. Era Roberto. Lembras de Roberto? Ele continua tendo um sotaque gostoso. Roberto falou de quando eu o protegia do sol. O bater de asas, Cecília... Comprarei um relógio de bolso de presente para Roberto. Achas que ele vai gostar? Tu devias ir também para o sul, menina; seria um encontro bonito. Marcaríamos no relógio novo de Roberto o momento exato em que nos víssemos. Mas Roberto nunca saberá escutar os ipês. Talvez ele aprenda ouvir as camélias. Talvez ele já as ouça. Os ipês são nosso segredo, Cecília. É bom ter segredos. Ontem eu disse a Roberto que estava me sentindo linda. Eu estava tão bonita ontem, Cecília; devias ter visto. Um espelho, apenas um espelho... Eu continuo lutando, sabe. Conheci pessoas encantadoras por esses dias. Estive em um vilarejo com vento forte que levantava areia e trazia um cheiro de mar. Ouvi histórias de escravos e de maldições de raizeiros. Tu também sairias encantada de lá, ou amaldiçoada talvez. Nesse vilarejo nem é preciso relógios, Cecília, o tempo também bateu asas. Até mais, pequena. Perca-se na bagunça da tua/minha poesia, e escute os ipês, minha flor.

domingo, 18 de novembro de 2007

o choro e as hortelãs.

Cortázar disse que a duração média do choro é de três minutos. Deixo aqui dito que não me incluo nessa média. Choro por horas, até dormir exausta. Choro sem discrição. Choro lágrimas de crocodilo, embora goste mais de jacarés. Choro no cinema. Choro ao telefone. Choro em discussões no trabalho. Choro no ônibus e na parada de ônibus. Choro no centro apressado de fim de tarde. Choro embaixo do guarda-chuva, embaixo da chuva, nas ruas que sempre alagam das cidades litorâneas. Choro longe do litoral. E choro em casa, feito criança chorona de Cortázar, limpando o nariz na manga da blusa. Acho-me feia chorando. O rosto fica vermelho, com nariz de palhaço. Não gosto de palhaço triste. Eu moro sozinha em um apartamento sem sacada. Queria que meu apartamento tivesse as cores de Almodóvar. Até que tem. Queria ter vasos com pés de hortelã, mas viajo muito; as ervinhas morreriam secas. Não tenho ninguém para regar as hortelãs (que não tenho) para mim. E o motivo pelo qual eu choro tanto? Choro pela saudade do cheiro que as hortelãs trazem. Por lembrar que minha avó contava que quando ela e suas irmãs, no seu tempo de moças do interior, iam a alguma festa, colocavam uma folhinha de hortelã dentro do sutiã para usar como perfume. Ai, como eu queria ter um só pezinho de hortelã. Hoje choro pelas hortelãs. E choro muito. Mas amanhã chorarei mais, que o choro será por não ter ninguém nem para regar as hortelãs.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

elo.

Andávamos pelo centro de Porto Alegre e ele bateu a cabeça na placa de PARE;
continuou caminhado.
A última vez que o vi, ainda pude ver a marca na sua testa;
continuou caminhando.

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Guardo uma foto dele no caderno verde de antropóloga.
Uma foto em preto-e-branco.
Gostos dos casacos velhos e justos que ele usa.

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Ele: tenho medo de morrer.
Ela não quer que ele morra.
Ele: não quero ser uma coisa triste na tua vida.
Ela: estou feliz de estar aqui. tenho medo de partir.
Ele: não parta!
Ela: não morra!

terça-feira, 30 de outubro de 2007

POST IT.

POST IT 1: Esconder os isqueiros; não esquecer!

POST IT 2: Não deixar as chaves perdidas pelo(os) caminho(os).

POST IT 3: Aprender a ser sozinha.

----- stand by ----- tag na mala.
POST IT 4: take this tag of your neck; não esquecer!

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

antônio.

Antônio estava inquieto. Não achava de maneira alguma o que procurava. Ninguém sabia onde poderia estar. Talvez sua ex-namorada tivesse levado junto quando partira. Como ele poderia saber? Se realmente assim tivesse sido, ele nunca mais o recuperaria. Ela não atendia seus telefonemas. Disse que desapareceria da vida de Antônio. Até aquele momento a despedida não o preocupara, agora, no entanto, era diferente. Se ela o levara de fato, Antônio estaria perdido. Ele havia aceitado despedir-se dela; era a ausência da moça que ele ignorara assim, tão facilmente. Não que ele não desprendesse nenhum afeto por ela. Também não era o caso de terem brigado ou qualquer coisa do tipo. Ela era uma boa moça; era bonita, inteligente até certo ponto. O fato é que a moça o enfadava. Suas histórias o cansavam, seu sorriso lhe parecia amarelo, suas compulsões por limpeza o irritavam. Antônio sentia que a vida da namorada (agora ex-namorada) não cabia na dele. O problema era justamente esse: ela insistia em tentar colocar sua vida dentro da vida de Antônio. E ele não queria possuir a vida de ninguém, muito menos uma vida assim, tão sem-gracinha. Enfim, até então era apenas a ausência dela. Antônio não contara com esse outro sumiço. Desesperou-se. Revirou a casa inteira. Passou uma semana vasculhando. Abriu suas gavetas uma a uma, mesmo tendo medo das coisas que saem das gavetas há muito fechadas. Nada. Nadica de nada. Estava com ela, indubitavelmente. Só restava uma coisa a fazer. Sim, era uma solução drástica. Não, não era uma saída nem um pouco justa. Bem, a vida nem sempre pode ser justa. Não em momentos como esse. Antônio foi até a floricultura e escolheu as mais lindas tulipas que seu dinheiro de estagiário podia pagar. Pegou um papel. Escreveu à ex-namorada coisas bonitas que nunca diria, não para ela. Na carta, implorou, suplicou para que ela voltasse a sua vida. Antônio enviou as flores e o papel inescrupuloso. Depois ele daria um jeito nas conseqüências. O importante é que a volta da moça traria junto o que ele tanto sentira a ausência. Não deixaria nenhuma crise de consciência atrapalhar. Antônio precisava recuperar seu Surveiller et Punir autografado que herdara do tio. Afinal, Foucault era Foucault.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

liminaridade.

Os atributos de liminaridade, ou de personae (pessoas) liminares são necessariamente ambíguos, uma vez que esta condição e estas pessoas furtam-se ou escapam à rede de classificações que normalmente determinam a localização de estados e posições num espaço cultural. As entidades liminares não se situam aqui nem lá; estão no meio e entre posições atribuídas e ordenadas pela lei, pelos costumes, convenções e cerimonial. (...) Assim, a liminaridade freqüentemente é comparada à morte, ao estar no útero, à invisibilidade, à escuridão, à bissexualidade, às regiões selvagens e a um eclipse do sol ou da lua.
(Vitor Turner)



Fico pensando em mim como atravessando um estado liminar. Por vezes tendo a achar que este estado tem durado muito, que já deveria estar na fase de “reagregação”. Entristeço. Acho que nunca chegarei a esta fase. Ao menos não aqui. Flutuo. Deslizo entre as pessoas que não me reconhecem; nas quais não me reconheço. Procuro os cantos. Calo em momentos os quais geralmente me fariam berrar. Não tenho crises histéricas. Crises histéricas são para se ter entre os nossos. Rio pouco. Não dou saltinhos pelas ruas conhecidas (não existem ruas conhecidas). Não imito sotaque “português de Portugal”. Procuro manter-me neutra. Sinto-me doente, fraca. Tenho enjôos. À noite, congelo, depois umedeço as cobertas de tanto suar. Não tenho fome. Não tenho sede. Quase nem choro...

Vislumbro como única solução à volta ao estado inicial.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

cabelos.

Frio.
Tela piscando em cor-de-rosa.
Carolina diz: "não sabia que ser artista dava tanto trabalho, puxa".
Pensei que fosse perder Bruno aquele dia.
Não consigo mais dormir sem ficar lembrando.
Vamos cortar os cabelos esta tarde, eu e Bruno.
Meu cabelo não fica bagunçado nunca, só espetado.
Queria que a vida não fosse tão escorregadia.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Poeminha Territorial II.


E se Maria me abandonar?
E se Maria me esquecer?
Não vivo sem os caminhos de Maria.
E se Maria me trocar por uma estudante de filosofia vinda do interior?
Não, Maria, não me deixe com Vitória.
Vitória é bela, mas fria, Maria.
E um tanto burra também.
Ai, Maria.
Ai de mim.
Preciso do teu sopro,
do teu assombro.

sábado, 19 de maio de 2007

mais um drama que já passou.

acordamos. a noite bebendo cerveja barata e discutindo o existir. discutir cinco minutos antes de dormir como pedra nunca foi um ato inteligente. pensei que tu me acordaria chupando meus peitinhos. meus peitos, os mais lindos do mundo, ainda. mas não, claro que não. tu acordou com fome, de comida, infelizmente. nem quis enrolar na cama, nem pediu pelos meu gemidos. achei ruim. trágico, na verdade. não queria achar que parecíamos um casal entediado e imóvel. te vi gordo. te vi perdendo tudo o que sempre me pareceu tão sexy. à tarde não fomos ao sex shop como há muito combinávamos. te achei preguiçoso. a resposta de que tu não precisava de acessórios para me comer não me convenceu. continuei te achando preguiçoso. fiquei sem vontade de transar com um bukowski fajuto e aposentado. perguntei se tu precisava de um pouco de espaço, se queria ficar sozinho. acho que eu queria ficar sozinha. queria ler textos eróticos e me tocar, sem acessórios. eu sim sem acessórios. talvez imaginar anna karina lambendo meus mamilos. pensar em natalie portman fazendo strip em cima do meu corpo branco. ela estaria usando aquela peruca cor-de-rosa. era isso, queria ficar sozinha e não pensar em ti e em nenhum outro homem. os homens estavam parecendo inúteis. queria sexo, sabe. mas sexo de enlouquecer, de implorar por mais forte e por mais rápido. queria ser amarrada naquele instante e tremer apenas com um toque. pensei que tu nunca mais ia ser capaz de me fazer feliz assim. dessa felicidade de amantes irrecuperáveis. não sabia se algum dia voltaríamos a ser irrecuperáveis.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

música de roda da minha terra:

"a lua no céu também quer dançar,
não acha com quem e se põe a chorar,
mas passa um balão, bonito, encarnado
e dança com a lua um lindo bailado".

domingo, 13 de maio de 2007

cecília e as galinhas.

Cecília tropeça muito. É desastrada. Un éléphant dans un magasin de porcelaines. “Deve ser agradável entrar em uma banheira com gelatina”. Cecília ri de suas bobices. Acha-se ingênua. Quer ser ingênua. Cecília cansou de ser espertinha. Dá muito trabalho. Pensa em colecionar pedras. Trazer uma pedrinha de cada lugar. Sente falta de sexo. Não agüenta mais tantos livros. Espirra de alergia. Cecília queria ter letra bonita, como seu pai. E comer menos chocolate. Ela acha interessante estudar línguas indígenas. Não, mentira! Cecília nem se interessa por isso. Cecília interessa-se por galinhas. Claro, galinhas! Perdeu o medo que tinha das galinhas. Quem também se interessar por galinhas, escreva para Av. Morumbi, 8264 – São Paulo – SP – CEP: 04703-032. Aos cuidados de Davi. Cecília cansou de relacionamentos. Decide ir morar no mato. Faz uma trouxinha com sua colcha de retalhos. Cecília foi para o mato criar galinhas.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Encantar

do Lat. incantare
v. tr.,
exercer encantamento em;
seduzir, enlevar, maravilhar;
atrair;
v. refl.,
tomar-se de encanto;
enlevar-se;
maravilhar-se;
desaparecer, tornar-se invisível.


Teve medo do desaparecer, tornar-se invisível. Pensou não saber mais se diria: “sou encantada por ti”. Num daqueles dias, ela confessara que ele não mais a encantava. Hoje, justamente na manhã de hoje, ela acordou feliz. E sentiu (na fila do banco ela sentiu doçuras) que finalmente ele voltara a encantá-la. Ele gostaria de saber isso. Saber do desencantamento deixara-o desolado. Fora uma daquelas verdades as quais não devem ser ditas; só devem ser ditas quando se quer fazer doer. Não deveríamos querer fazer doer. Ou só fazer aquele doer pouquinho (nem sempre tão pouquinho assim) nos momentos em que o amante diz rouco, quase suplicando: “me bate” – ou me morde, ou me aperta, ou ou ou. Saindo do banco ela, ainda sentindo todas aquelas breguices de quem se encontra apaixonado, pensou, sem saber muito o motivo do pensamento, no significado da palavra encantar. Lembrou de contos de fada, de magias, de narrativas inventadas por seus pais antes de irem todos dormir. Queria que ele a encantasse, gostava de sentir-se encantada, até achava bonito isso de encantos tipo feitiço. Mas não gostou de lembrar de quando sua avó procurava o batom preferido, com aquele jeito esquisito com que as avós procuram as coisas, e depois lhe dizia, sem muito espanto: “meu batom sumiu como que por encanto”. Para sua avó tudo desaparecia no quarto repleto de coisas antigas e coisas guardadas e coisas de porcelana “como que por encanto”. Ela não queria que ele sumisse como que por encanto. Não queria que ele se tornasse invisível. Havia muitos anos que ela não mais acreditava em coisas invisíveis. A não ser, é claro, naquelas coisas que a medicina moderna ensinara a acreditar (e temer). Se ele se tornasse invisível ou ela não acreditaria mais na sua existência ou passaria a borrifá-lo com spray anti-séptico, mesmo não sabendo como poderia acertar com spray anti-séptico alguém invisível. O pior mesmo era pensar no desaparecimento. Ele sendo encantado, poderia sumir a qualquer instante. Seria triste, seria uma tragédia dessas de chorar soluçando por muitos dias. Se ela contasse ter percebido que ele voltara a encantá-la, não conseguiria deixar de dizer todo o significado ruim disso. E o dia foi perdendo a graça. Então, como que por encanto, ela pensou que se ela era encantada por ele, a magia dele recaía sobre ela. Os dois eram encantados, enfim. Ela também poderia desaparecer, tornar-se invisível. Sorriu. Percebeu que eles eram encantados apenas um para o outro. Serem encanto/encantados/encantadores era um ser-um-com-o-outro/um-para-o-outro. E sendo assim, apenas poderiam desaparecer, tornar-se invisível se fizessem isso juntos. Ela não teve mais medo. Sabia ser este um pensamento bobo, desses bem bobocas, e sem muita lógica, ainda assim não teve mais medo. Contos de fada, de magia, feitiço ou encantamento nunca fazem muito sentido mesmo. Ou então, não o fazem para muitas pessoas.

domingo, 15 de abril de 2007

pierrot.

acabou por aqui, por esse lugar.
chega de não-lugares.
marianne quer viver com pierrot.
marianne decidiu mudar o final do filme.
gosto das tuas fotos preto e branco
mas quero ver como tu fica colorido.
vamos encontrar alice e alex.
vamos terminar o desenho da nossa cidade.
e vamos rodopiar de mão no coreto central.

terça-feira, 3 de abril de 2007

caracol.

enjôo.
fazia tempo que este enjôo específico não vinha.
culpa dessa vida misturada.
agora sim vou pra Brasília.
e então?
lembra aquela pergunta:
vive-se de amor eterno,
mesmo nesse tempo pós-moderno?
aqui nunca faz frio, eu acho.
já é abril e não faz frio.
depois de Brasília, eu vou pra casa.
quero ficar em casa!
queria ser caracol e carregar minha casa,
e minhas pessoas.
queria ser um caracol com ar-condicionado.

quinta-feira, 22 de março de 2007

about me and cecília.

Cecília acorda [ainda está cansada]. Ela pensa em um cigarro, mas toma chá de hortelã. Veste-se mais rápido que de costume. O telefone toca. Dois toques. Ela sabe quem é; não retorna a ligação. Imagina que seria bom ser trapezista. Concentrar-se somente em não cair. Ela está ruindo. Cada parte de seu corpo branco desfazendo como gesso. “Como eu dormi”, ela fala espantada. A dor de cabeça confirma que o tempo passou às pressas por seu sono [ainda está cansada]. Cecília acende o cigarro. Tenta soltar fumaça redondinha. Não consegue. “Que saco”. Não lembra o que sonhou. Talvez ela tenha gritado e acordado com a voz saindo rouca. Ou isso foi na outra noite. Pega a mochila: agenda, cigarros, livro de poesia, caneta, bloco rosa pink e ansiolíticos. Esqueceu as fichas do ônibus. Volta. Rói as unhas e sai. Na rua, pensa que deveria ter comido algo, vai ficar tonta logo.

segunda-feira, 19 de março de 2007

tarô.

- tarô. tu acredita em tarô?
ela pensa "en las brujas yo no creo, pero que las hay, las hay",
mas responde:
- não, claro que não.
- o tarô disse que ele dissimula, que ele está tentando te manipular.
"jogos, sempre os mesmo jogos", ela lembra daqueles passos repetidos até a porta, do adeus mentido, do "eu não te amo mais" dito de qualquer jeito. da espera na esquina por um resgate. ela lembra do resgate que não veio.
"será que veio logo que eu virei a rua?"
quem sabe? ela não quer mais saber, tem um novo encanto.
- tu deve tomar cuidado com ele, viu. ele não vai se abrir, não consegue.
"mas abrir minhas pernas ele consegue, e bem rápido", e solta um riso pequeno.
- do que tu tá rindo?
- nada, nada não. e eu não acredito nisso, já disse.
- aqui está mostrando que uma ruptura se aproxima.
"tenho que parar de roer as unhas, quero deixar marcas", se dá conta do que ouviu:
- o que?
- ruptura, uma ruptura.
- por que?
- ah, não sei, isso as cartas não dizem.
"por que ruptura, que porra é essa de ruptura? e a nossa viagem para o sul?"
- que mais que diz aí nessas tuas malditas cartas?
- ah, tu não acredita, né!
- diz logo!
- não sei direito. acho que tu vai passar por um período de amadurecimento,
vai ser importante.
"quem se importa com amadurecimento. quero é o pau dele endurecendo enquanto encosta da minha bunda. quero a nossa vida juntos. quero as cores escolhidas pras paredes da nossa casa".
- tu tá bem?
- tô. e não quero mais saber desse negócio aí. que besteira.
passa discretamente o dedo para conter a lágrima que já desce, enquanto pensa, sem querer pensar:
"las hay..."

quinta-feira, 15 de março de 2007

vício/papel/Odorico

Posso estar viciada em ti?
Apaixonada? Não.
Não faria sentido...
Vício, eu costumo ter muitos.
Paixões, só as de sempre.
É certo, estou viciada em ti.
Em ti e em escrever-te em papéis brancos.
Poderia riscar-te em minha pele;
é branca tal qual papel.
Mas lembra o quanto arde quando nos cortamos
com a borda fina do papel?

segunda-feira, 12 de março de 2007

um dia triste, de um triste de fazer dó em quem a olhava olhando pela janela.
um dia triste como Mário Quintana velhinho descendo uma ladeira no mês de agosto.
uma tristeza que se podia sentir no jeito leve com que ela roçava uma mão na outra.
ela estava assim, o corpo mole, a vida mole, os olhos quase fechando.
lembrou que sua mãe dizia:
"teus olhos são tristes como os dá bisavó Santa; olhos de bugre".
ficou mais triste ainda.
a primeira lembrança de sua vida era a bisavó Santa lavando roupa
no tanque de pedra.
lembrar daquela sua pequenice vendo viver uma bisavó Santa,
em uma casa laranja da periferia de Porto Alegre nunca lhe pareceu tão cinza.
a bisavó Santa era benzedeira e parteira.
tudo que ela queria naquele instante parado era ser benzida,
ser parida, por qualquer santa.
num dia como aquele nem queimar o pulso quadriculando-se faria ela sentir-se viva.
nada, nem raiva, nem dor, nem um gozo morno e branco nos seus seios mornos e brancos, nada.
a tristeza que ela sentia não tinha mais tamanho, não cabia mais no seu corpo pequeno e
cada vez mais pequeno e mais pequeno e mais pequeno.
nada mais cabia na sua vida pequena e sem-graça que ela nunca quis viver.
estar viva e não se sentir viva era pior do que estar morta.
e ela ficou na janela,
sua tristeza sendo coberta pelo pó de minério que caía brilhando no ar.

domingo, 11 de março de 2007

amargo-querido.



A vida como uma saída de clown. Bufão? Tu acha? Escuto Villa Lobos. O vinil que Cris me deu. Sinto dor de dente. Estou engraçada hoje. Brava e engraçada ao mesmo tempo. Diovanna anda com Carolina pela casa. Minhas pequenas. Queria um sofá xadrez, em cores berrantes. Que tu me comesse em um sofá xadrez. Eu berrando entre cores berrantes. Gosto da máquina de escrever. É mais séria que o computador. Gosto de roer as unhas enquanto penso em ti. O que eu vou fazer contigo? Tu vai me dar trabalho, eu sei. E ainda por cima, não vai me comer. Talvez isso me encante. Como ele não quer transar comigo? Nem entre cores berrantes! Quero que tu me salve. Ninguém nunca me salvou. Estou vestindo bata hoje, acredita? Gosto daquelas buzinas de algodão-doce. Era amarelo o algodão-doce o qual disputamos, né? Naquela hora eu já soube que um dia tu ia me dar trabalho. E eu nunca fui uma rapariga trabalhadeira. Agora tenho que ser. Preciso te sustentar. E nem tenho nariz grande.

quarta-feira, 7 de março de 2007

baby.

Cecília decide casar. Cecília vai casar com o menino mais bonito da festa. O que anda engraçado e tem os olhos invertidos. A moça morde o menino, forte e mais forte. Nunca fica roxo. Cecília não consegue deixar marcas. Mera mocinha básica. Cecília aprendeu a ser doce, educada e a falar baixo. Ela quer gritar, cuspir na rua e queimar a língua de quem lambê-la. Cecília-pimenta (do reino?). Castelo de cartas. Quer morar em um castelo de cartas. Cecília quer ser princesa nua e ter um filho chamado Sebastian.

domingo, 4 de março de 2007

quadriculada.

Odeio ter sido quadriculada. Não quero Arnaldo Baptista saltando de janelas. Boca seca da ressaca. Saudade de réguas e estojos divertidos. Nem tenho mais estojo. Até isso a vida de gente grande nos tira: os estojos. Palavra feia. Vontade de tomar um café bem forte com Foucault. Não gosto dessa biblioteca. Não parece biblioteca, é barulhenta e clara. Começou a chover. Não trouxe minha sombrinha azul com bolinhas brancas. Loser tomar chuva de ressaca. Loser ter um bandaid no pulso. O cheiro do detergente do balde da moça que limpa a biblioteca me enjoa. O que eu vou fazer? Chiliques epistemológicos. Vontade de tomar coca-cola de garrafinha de vidro com Foucault. Medo dos trovões, mas não se faltasse luz. Isso não é um poema. Amo comprar saias em brechós. Amo comprar saias. Não posso ir para Porto Alegre. Preciso! Péssima construção frasal. Remeta-me. Não sou Ana Cristina. Lembro Ana Cristina branca, vestido branco, em um quarto branco, manhã branca. Eu era uma menininha de vestido colorido, bem bem bem colorido. Vamos fazer terrorismo de linguagem, meu amor? Amor cor de uva.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

carta de amor (Pessoa diria, mais uma vez, que cartas de amor são ridículas).

falar que estou encantada e que me entreguei, isso tu já sabe. que eu te amo e quero ser tua, também já repeti e repeti e repeti. talvez tu não saiba do medo que eu tenho. medo de que tu não te entregue. sei que não era pra ter sentimento de posse. mas o amor sempre quer ter um pouco da coisa amada. e isso não precisa ser triste. te quero por inteiro. e, mesmo assim, te quero livre. mas te quero de verdade. quero que tu seja meu namorado, meu marido, meu amante, meu dançarino que cai no chão na festa. quero ser tua namorada, tua enamorada, tua esposinha, tua puta, tua rainha, tua guria blasé. quero o teu sopro todo dia. quero o teu corpo todo dia e toda noite. e que seja assim, sem ser trágico. não quero que a gente se isole, nem que viva um amor egoísta. mas quero que a gente tenha umas piadas internas, que a gente se olhe umas olhadinhas de relance e já saiba o que o outro está pensando. quero que a gente vá nas festas juntos, no cinema juntos, na padaria juntos, no buteco fuleiro da esquina juntos. e quero também que a gente vá a todos esses lugares sozinhos, ou com quem se quiser ir. quero que isso de dizer "a gente" seja perfeito e mais perfeito ainda. e quando não for mais, pronto, que não seja, que se diga: Adeus, Maria Fulô. mas quero que seja sempre sincero, e que seja sempre tudo o que pode ser. não sei viver de outro jeito, não sei viver ser ser descaradamente, escancaradamente, inteiramente. quero uma vida calma, mas nunca morna. quero ser tua e que tu seja meu. e que tu entenda que isso pode ser leve, que isso pode ser doce ser ser enjoativo. entende, eu não nasci pra nada mais ou menos.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

cecília careca.

Quando Cecília tinha cabelos,
ela criava galinhas.
E transava.
Cecília era amante,
minha amante.
Um dia, Cecília matou as galinhas:
fez canja.
Deixou a Macedônia.
Cecília foi morar no Cerrado.
Ela não gostou da terra vermelha.
Vermelho não é cor para o chão.
Underground.
Cecília então foi à praia, e enferrujou com o sal.
Ela ficou da cor da terra vermelha.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Carolina, do alto de seus 2 anos e 10 meses, avisou que os "aliemígicas" estão invadindo a terra.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

carinho.


Em casa: é bom aqui. É calmo aqui dentro. Um pouco triste. O tio piorou. Fui visitá-lo com meu pai. Queria agarrar forte e não soltar. Perguntei: tio, me conta a história de Nossa Senhora da Salete? Ele começou a contar, mas com uma voz tão fraquinha que eu tive medo de ele ir-se no meio da frase. O tio ainda queria relacionar o mito da aparição com o contexto político da época, manifesto comunista e tal. Ele queria falar, mas eu tinha vontade de chorar e dizer: tá, tio, não fala mais, guarda esse fiozinho de voz. Aqueles pequenos olhos azuis... À tarde meu pai tinha decidido me mostrar o alto-Uruguai. Meu pai gosta de mostrar as coisas que ele já viu. Roubamos goiaba pelo caminho. E falamos mal da monocultura de eucalipto. Eu e meu pai nos parecemos. Queria ter os olhos de um verde vivo, como meu pai. Se eu pudesse, tirava toda a agonia dos olhos azuis do tio. E toda a preocupação dos olhos verdes do pai. Não queria ir pra longe deles nunca mais.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

fotografia.

Fotografo-me nua,
soprando bolinhas de sabão.
Cores de um prisma.
As fotos são tuas.
Quero que te toque olhando para mim.
Que tu ache meus seios os mais lindos.
Meus mamilos apontando
tua boca.
Me lambe, com calma, em paz.
Tu vai me achar doce.
Vai perguntar se pode morder.
Eu deixo,
a tua boca, eu deixo,
fazer qualquer coisa.
Et après?
Depois eu te chupo.
Te sugo, teu suco.
Lambuza meu corpo, meu rosto,
minha vida.
Tudo simples assim.Fotografia opaca e com borda.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

dramas.

I love you. La, la, love you... Hoje não tenho uma pergunta a ser feita. Nada a dizer sobre cidade nenhuma. Aprendi a engavetar. E aprendi a colocar saches para perfumar as gavetas. Quem sabe um vôo? Ganhei um bolo; um bolo com confeitos coloridos. A Fer ligou lá da Bélgica. Disse que na Bélgica não falam belga. Fernanda disse que belga não existe. Ando viciada em comprar cortinas. E essa estrada surpresa que não chega a porto nenhum? Sabe, eu preciso de platéia. “My contention is that the major genres of cultural performance (from ritual to theatre and film) and narration (from myth to the novel) not only originate in the social drama but also continue to draw meaning and force from the social drama”. Turner entenderia meus dramas? Queria minha mãe aqui, para dizer se estou bonita como uma noiva. Estou bem assim, mãe? Talvez ela aumentasse a dose do meu anti-depressivo.