domingo, 1 de dezembro de 2019

sobre o tempo.

Eu sabia um tanto de coisas
mas isso foi antes,
quando o tempo ainda não tinha parado.
Eu já tinha visto o tempo parar,
na primeira vez em que estive na Vila de Itaúnas.
Eu, Breno, Vitor e Simone comíamos lanches ruins
em frente à Igreja de São Sebastião.
Um senhor passou de bicicleta com uma viola nas costas,
soprou um vento de lugares assim, que são beiradas do mundo,
a terra levantou em redemoinhos
e então o tempo estava parado.
Agora é diferente,
o tempo parou dentro de mim.
O tempo estagnado aqui dentro, torna-me presa dele,
imóvel
mas sem criar limo ou raiz.
E o tempo de fora não muda,
continua alheio a mim como há de ser.
Ouço seu barulho constante,
um barulho de microfone próximo demais da caixa de som.
Não é como quando o tempo do mundo para e tudo fica suspenso em silêncio.
Esse ruído infinito causa náusea e vertigem
mas não tem queda.
Só uma lenta transformação em um destes bustos de figuras condenáveis que deveríamos derrubar
mas apenas deixamos para lá,
num canto da praça.
Estou virando uma estátua
sisuda, fria e descascada,
servindo apenas de banheiro para pássaros
que nem lembram mais da vida nas matas.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

ainda sobre o seco.

(depois de um tempo longo demais, escrevo.)



Quis afagar minhas mágoas
e transbordei.
Não teve gosto de mate,
nem sombra de casinha azul.
Só meu prédio azul,
arapuca de passarinho.
Bethânia quadriculada,
ainda.
Um engano por gosto.
Eu temo o só,
tu estás solidão.
Bethânia é intensidade,
tu falas
e fica na superfície.
Sigo rio fundo.
----
Saudade do tempo em que os jovens eram românticos, insanos, dementes. Agora tem os ❤s cansados.

[pausa para escutar Belchior: “amar e mudar as coisas me interessa mais”]
----
Fiquei para trás.
A menina boba velha,
mais para boboca.
Quis um banho de alma,
mergulhar junto, tirar o mofo.
Deixar apenas criar limo,
lugar de caramujo.
Não se tira alguém da concha
para então se esconder.
Eu teimo em desaguar
onde está sempre seco.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

roseiral.

(muito muito tempo depois, escrevo)

No meio da casa tem uma cela
abarrotada de ouriços.
Eles espetam uns aos outros
não por maldade
o encostar machuca
e é preciso se aproximar para fugir.

-----

Fugas não planejadas
a casa na mala de garupa
o caminho da praia
a praia nua.
Antes da praia um roseiral
os espinhos.
[minha avó dizia: Cuidado com os espinhos, eles furam a pele e navegam no sangue até o coração, morre-se assim]
Morre-se tanto.
Eu não sou amor da cabeça aos pés.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

perfil - nov/2012

Me gusta reir como una loca.
lindo é uma ducha quente esfumaçando o banheiro do hotel pela manhã.
pedaços de vidro, nos mais variados formatos, também me encantam.
começo a sentir que envelheço rápido.
eu achava que com o tempo aprenderia a ser mais paciente;
é o contrário.
tenho a cada dia mais ganas de esganar.
não sou doce, não sou bonita, não sei sambar.
o não-fazer-nada me atrai sempre mais.
apesar disso, eu falo, e falo, e falo...
e nem são muito belas as coisas que digo.
Por qué no te callas, Bethânia?

terça-feira, 11 de setembro de 2012

sala da árvore.

Há uma árvore na minha sala,
famílias de pássaros e estranhas lagartixas.
Uma casa que ainda não me possui.
Um casamento que não me convence.
Eu, mais branca que a lagartixa,
tenho medo do vulto dos galhos quando escurece.
Queria ser bicho, mas temo o vento.
Tendo que ser uma esposa, eu estou mais pra casulo.
Borboleta que involuiu.
Era para ser uma casa a dois, mas tenho sido caracol,
sozinho com o peso da morada.
Caracol deixando rastro de lesma.
Comendo as folhas da árvore da sala.
Comendo a sala.
Quebrando um pedaço da casa-concha a cada tropeço.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

anotações sobre as águas.

nas águas moram seres assustadores, mas eles são coloridos.
para navegar, há de se ter fé.
e a areia cobriu o mastro
(para conhecer o mar, tem que saber cantar).
-----

os peixes são filhos da Mãe d'Água.
ela me chama nas noites certas.
não possuo escamas,
sou peixe de lodaçal.
queria ter o colorido da Mãe D'água:
escamas-escudo de cristal fino.
sou peixe de couro,
vivo na parte escura do rio.
-----

a cobra grande tem o cheiro azul.
não! o cheiro é verde.
............ marcas da cobra
rastros linhas traços
aquilo que se mostra sem se mostrar.
-----


gosto mais da cor morena, que casa com a areia da praia e com o verde da beira do rio.
-----


anotações sobre assombrações:
ele me assombra, escorrega no frio por ele feito verão.
é peixe de rio,
de um rio no qual eu não consigo desaguar.
os meandros onde o peixe repousa
com seus olhos-de-não-compreender.
de que rio é feito esse choro?
rio misturado com mar.
um peixe morando em teu olho.
como se nada assim em um outro?
-----


o meu córrego preferido tem nome de árvore.
quero parir dentro d'água uma menina com nome de flor.
-----


eu não sei remar,
isso é triste porque eu não deslizo.
eu gostaria mais de saber remar do que escrever.
-----


em qual camada na terra você vive?
eu vivo na mais úmida,
acho que é o ventre de alguém.
aqui há sempre um barulho de água pingando.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

de encontros com onças.

Ela sumiu.

Ela não consegue caminhar porque quebrou o pé esquerdo.

E por que não tem escrito aqui? Também quebrou a maquininha das idéias? Bateu a cabeça e ficou lelé-da-cuca?

Não, é que ela sabe pelo corpo. Uma parte dele avariada confunde todo o mecanismo de sapiência. Triste sina de quem é virado em bicho.

Bicho?

Lembram uma história que ela contou sobre o encontro com uma onça chamada Bernadete? Pois aconteceu de elas viraram uma só. Quando toparam uma com a outra, a onça espiou fundo os olhos dela e ela mirou firme os da onça. Deu nisso, viraram uma só, meio onça meio moça. Não se deve olhar muito certos seres que encontramos no caminho. Meio dia e seis da tarde, então, danou-se.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

notas encontradas em um grande caderno de capa vermelha.


Há sempre mais a dizer, mas me parece difícil explicar o desplazamiento. É algo de tristeza, tédio, timidez, solidão, ansiedade, estranhamento e medo. Medo porque eu sei que as experiências marcam, cavando ainda mais esse desplazamiento dentro de mim.

Eu percebo que nunca sei me portar adequadamente.

Tantas coisas que não se pode olvidar, ainda que se olvide,
não se pode!
Olvidar é uma maneira de não ter mais medo, porém alguns medos fazem morada
[e outros medos fazer amor?]
Não olvidar... Não duvidar
Falar a mim mesma como se eu fosse tu em viagem até meu corpo
Eu sou tu em meu corpo
Eu sou tua cabana, até quando queiras
Não disponho de nada
Não deponho por nadie
A vida sem vias
Salvação?
Dizem que é bonito lá fora.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

dentro.

Claro está que o tempo aqui dentro passa mais depressa do que a minha respiração pode acompanhar sem faltar o ar. Mas aqui dentro surgem lembranças ágeis não combinando com clima de imobilidade. Meu interior é um mundo também composto sabe-se lá de quais/quantos extra-humanos. Bebo chá de camomila para agradar o corpo e borrifo essência de alecrim no quarto de janelas sempre fechadas. Meus olhos de bugre, que minha mãe diz herdados de minha bisavó, cansaram das miradas entre quatro-paredes, entretanto, têm preguiça da luminosidade. No mais, eu me preocupo com o que dizem os profetas, não pelas profecias, mas pelo tom de gravidade o qual sempre me emudece.

quinta-feira, 31 de março de 2011

notas dos últimos dias de março.

Comprei um vestido florido (nenhuma novidade).
Quase não consegui sair da cama,
a vida anda muito crônica para encará-la.
Eu nasci em um rio escuro, lodoso, por isso sou meio peixe,
respiro mal fora d’água e gosto dos dias úmidos.
Ontem, um pássaro piscou para mim de cima da caixa do correio,
corri para abrir,
achando que era o sinal de que missivas me haviam chegado;
nem mesmo um bilhete.
Olhei feio para o pássaro e ele voou,
arrependida, chorei.
Ouvi um vizinho ensaiar trompete e ri dos desafinos,
dos dele, não dos meus.
Minha mão melhorou, mas a ferida ainda não fechou por completo
(alguma ferida fecha por completo?).
O médico disse que ficará uma cicatriz (nenhuma novidade).
Enfrentei uma barata como se isso fosse salvar minha vida,
a barata escapou
e eu desacreditei a salvação.
Fui ao cinema e chorei, menos do precisava,
mais do que o resto do público aprovou.
Vontade de parar com o choro e botar as barbatanas no rio.

sexta-feira, 25 de março de 2011

rosa e hernández.




Rosa e Hernández iam casar, mas ela acabou comprando uma bicicleta. Não que ela não amasse Hernández, não era isso. É que Rosa passava por cima de muitas coisas, mas mentira era algo que a machucava irremediavelmente. E Hernández mentia. Por medo, insegurança, canalhice, hábito, habitus, ou por tudo isso. Rosa ainda achava que ele era o amor de sua vida, porém descobriu que Hernández nunca seria o homem da sua vida, o homem com quem ela dividiria o peso da sacola de feira. Claro que perceber isso doía, mais do que quase tudo que já doeu. Rosa, entretanto, não tinha escolha, ou melhor, tinha, e escolheu que mais valia uma sinceridade na boca do várias mentiras dando rasantes. Ela sabia dos riscos, lembrava da música “no campo do amor, a mulher que não mente, não tem valor”. Mas os valores de Rosa eram outros, melhores? piores? Ela não saberia dizer, eram apenas outros. E Hernández era agora também um outro para ela, um outro que ela não sabia relativizar, não estando tão perto. Rosa aprenderia a ficar só, ela, com seus espinhos sinceros.

sexta-feira, 18 de março de 2011

modern romance.

[os dois estão sentados lado a lado em um bar, mesa de madeira, pouca luz, copos de cerveja]
Ela: Tu está bem? Não está sentindo dor?
Ele: O pé dói um pouco, mas estou bem. Tu notou que temos piercings iguais nas orelhas?
Ela: É?
[ela pega na mão dele, ele a olha tímido, meio sorriso, e ficam assim, carinhando um a mão do outro]
Ela: Eu acho que estou apaixonada pela tua doçura morena.
Ele: Fica, apenas fica?
Ela: Fico. Tu me ensina a andar de bicicleta?
Ele: Sem te deixar cair.
Ela: Eu acho teu nome esquisito.
Ele: Eu acho o teu nome bonito.
Ela: Eu te acho bonito.
Ele: Eu te acho bonita..., e esquisita.
[risos]

ao som de modern romance na versão do tv on the radio.

terça-feira, 8 de março de 2011

hacer amor.



por aqui, ainda não aprendemos a fazer amor por telepatia
sabemos fazer amor, isso sim.
hora de costurar novos tons na veste surrada.
posso bordar tulipas também em teu corpo,
só não peça para regá-las com nada menos que a vida.
a minha vida, for sure,
da tua, eu nada saberei além de arremedos
- o mostrado quando não se sabe/quer viver de todo –
medos? ainda temo o morno.
continuo a doer nos outros, e vice-versa,
porém agora contabilizo de outra maneira.
o estar-aqui é que não pode machucar.
marcar ≠ doer → no olvidar
amor? que es esto?
é costurar um mesmo tecido.

PS: Es difícil hacer el amor pero se aprende (Antonio Cisneros).

--

sexta-feira, 4 de março de 2011

coisas que ela quer...



Ele tem uma cor que faz bem, uns olhos escuros que sabem mirar. Algo tão novo parecendo um antigo calor. Ele é pequeno, ela quer abraçar. Ele machucado, ela ninando, segurando no colo, segurando em si. Ela quer apertar a mão dele por um tempo sem relógio, conversar sobre os Azande, ouvir folk songs, recitar Cisneros, oferecer drops de laranja, qualquer coisa, mas de mão. Ela, branca e falante, agora fica corada e perde as palavras. Mas não quer esconder coisas boas, porque aprendeu a mostrar tudo de si para quem sabe ouvir. Ele sabe ouvir. Ela também tem fraturas, aquelas de sempre, as que ficaram ali, lembrando que existem quando o tempo está para chuva. Ela, sempre tão cinza, quer ser sol para ele, quer ter olhos que não sejam de nuvem. Ela quer aprender com ele a pedalar. Ela teria uma bicicleta com cestinho para colher flores (do campo, sinceras como a última noite) e presenteá-lo, com o vestido voando e um sorriso discreto. O sorriso dele também é discreto, mas ela sentiu caber ali dentro. Poderiam passear pela grande cidade, tímidos e trôpegos como Jacques Tati.

São pensamentos dela para ele.

Ela teme o desencontro, mas vê que caminhos diferentes continuam sendo caminhos. E caminhar (ou pedalar) pode levar até à beira de um lugar bonito, novo e com vento fresco.

Ele ainda não sabe, ela sussurra daqui:
- Eu vivo por dias mais frescos...
E o sussurro é também um convite.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

itaúnas II.

Os caminhos do pequeno vilarejo,
os atalhos de poeira percorridos por meus pés duvidosos.
Eu, acostumada com o asfalto, perco-me aqui.
Escuto as toadas e sei que é tempo de resguardo.
Desenho flores descombinadas com o lugar,
de(s)componho.
Acender um cigarro para a dona da mata
e abrir os caminhos.
Traçados de mim imaginando a grande cidade
na qual ele vive.
Ele, que eu nem sei quem é.
Mas e aqui?
E essa terra de reis trajando mantos de chita?
Parto a rodar montada em um cavalo-marinho.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

itaúnas.



Existem horas,
depois dos pandeiros e do banho no rio
em que ela pensa no estar junto.
Coisas da vida a qual muda mais do que ela,
Mesmo não se sentindo de todo.
E a dor volta comprimindo os músculos dos olhos,
inclusive quando ela enxerga à distância.
Algo dela a ficar na areia...
E cores na retina, mais vivência do que olhar.
Lembrando as coisas que importam.
Ela, a menina dos olhos de nuvem
nuvem nuvem
que chove quando todos esperam o sol.

-----------

Cecília está sem relógio, não sabe a hora de retornar. Os caminhos sempre se abrem, mas as horas, quem sabe? Cecília a ouvir os pandeiros. Pequenos passos de quem esquece como bailar. No lo se, no lo se... Mira, Cecília, a rua de chão batido cortando a vila como tu já cortaste teu corpo. Mira o rio vermelho/amarelo a contar as histórias que tu não conseguias ouvir. Vamos, moça de flor, arruma o cabelo, veste uma cor e aprende o lugar. Escuta, Cecília, o canto gritado das mulheres da roda, vive o tambor. O lugar onde o mundo começou, onde tu aprendeste a ser flor e cor de crepom.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

eco.

Os dias não foram desenhados para ela
Rabiscos fazem parte da vida de forma mais sincera.
Faltava o ar, entre reencontros e outros,
eles, que haviam casado com o desplazamiento.
Completar bodas, sempre em vão, incompletas.
A falta de dizer: é isso o que eu quero!
A falta de saber.
À beira do lago-rio, pedidos viram pedaços do poente,
que já foi mais bonito.
Qual a tua idade?
O tamanho dos pontos desfeitos em cada vestido.
Ele pede desculpa por suas confusões.
Ela pede desculpa pela idiotice (a de sempre).
Eco, é sempre um eco que salva as noite de silêncios cruéis.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

gente das águas.

Cecília já tinha certeza de que viveria como aquela gérbera, mergulhada sozinha na morada de vidro. Foi aí que a campainha tocou:
- Oi, eu sou Davi, mudei pro apartamento da frente. Eu fiz muita salada de fruta, quer um pouco?
Ela quis e achou que Davi tinha um quê de pescador. Só que no dia seguinte, ele apareceu convidando-a para jogar videogame e Cecília pensou “isso não combina com pescaria”. Ela disse que não podia, tinha muita coisa do mestrado para ler. Davi perguntou o que ela estudava:
- Eu estudo COM uma comunidade de pescadores.
- Que bonito. Um dia, se os pescadores deixarem, eu posso ir junto contigo fazer umas fotos? É que as coisas da água me encantam.
Foi então que Cecília percebeu que não era um ar de pescador que ele possuía e sim um ar familiar. Talvez ainda não familiar, mas que logo seria, só pelo jeito-cheiro de gente das águas que Davi tinha.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

fim de festa.

Eu que sou triste, meio des-sendo, achei que a festa tinha acabado. Mas então surgiu, não sei trazida por quem, outra cachacinha e acabei ficando um pouco mais. Eu olhei assim, ele olhou pra mim e eu disse, des-dizendo, “love u”; e a noite foi de um bailado bonito, meio trôpego, mas com ritmo. Só que no dia seguinte (o dia mesmo, não a pílula) eu acordei de ressaca, mandei-o embora, vomitei, tomei chá, expurguei e decidi que nessa festa eu não quero mais dançar. Quem sabe quando o carnaval chegar...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

partida.

Por aqui, morre-se devagar, e soluçando. E não adianta beber 8 goles d’água que o soluço não passa.