terça-feira, 20 de outubro de 2009

notas de um outubro que ainda dura.

Dias
de sentir dores no útero como quem sente arrepios na nuca,
de trocar publicitários por cientistas sociais,
[anúncios enquadrados]
de apagar números da agenda,
e dos roxos começarem a se tornar esverdeados.

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O café do laguinho:
Eu achei que as águas me suspendiam,
quase um coreto flutuante
e eu flutuava 5 anos mais nova.
Who needs blogs?
Tem dias que eu escrevo em código pra ver se irrito minha enxaqueca.
Os perigos de fazer qualquer coisa na cama.

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Eu não sou nada além de uma jovem [e respeitável?] senhora de 25 anos,
com roxos além da conta para mangas curtas, cavadas e afins.
Ninguém lê este blog.
Ninguém lê as entrelinhas de uma vida ma(r/s)cada.
Eu vejo a usina e não mais trabalho com a devida concentração.
Eu colheria corações partidos, não tivesse sido eu a responsável pelos farelos.
Je suis o que mesmo?
Quem rega o meu jardim?
Anotações de um dia que vai para lá...
[siga a seta. siga o complexo sistema de caráter simbólico o qual ordena sua visão de mundo. adultos do Snoopy: “Bláblábláblábláblá”]
Antropologia de uma nota só.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

primavera no Centauro.

Primavera.
O jardim do Centauro está encantador.
Flores de jardim são mais bonitas que flores do campo?
Flores do campo voam mais longe,
pólen espalhado entre campos (nativos ou não) e resquícios de mata atlântica.
Fantasia de borboleta sem resposta nem purpurina.
Brilho em volta dos olhos: caídos, chorosos, cansados, marotos.
Ela morde os lábios – são vontades.
Espeta o dedo, o sangue-seiva empoçando na concha da mão.
É primavera no jardim do Centauro.
E chove tanto nesse mês de outubro,
temporais da Serra do Sudeste à Depressão Central.
Azaléias recolhidas do chão do parque para a coroa.
Ela ainda pergunta:
- Serei coroada?
E tece, a pequena borboleta desasada tece qualquer coisa – uma asa nova? – com as azaléias.
Enquanto isso, canta:
- “A mariposa triste, coitada, veio ao mundo pra morrer queimada”.
Medo de na verdade ser mariposa iludida de borboleta.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Cecília viu campos com flores amarelas. Alguém lhe disse não gostar de amarelo. E se sentisse saudade? Cecília não sabia se ainda tinha coragem para telefonemas, convites e incertezas. Olhos invertidos a deixaram amarga. Olhos caídos saberiam adoçá-la?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Cecília achou bonito ver emas nas cercanias de Uruguaiana.
Gostou de atravessar a fronteira sozinha – mochileira intergaláctica.
Buenos Aires era cinza (até ela descobrir o Caminito).
Riu ao serem expulsos de bares.
Cecília achou que a Argentina não lhe quis bem.
Pensou em azar – esqueceu de perguntar se os argentinos acreditam em mau-olhado.
Ela temeu os pombos da Plazoleta Julio Cortázar.
Cecília não encontrou a casa de Borges.
Procurou receitas escondidas entre as panelas de Gardel – um regalo para um doce cozinheiro.
Não se encantou por Buenos Aires,
mas um velho taxista cantando-lhe tangos pareceu encantador.
Cecília desejou uma suíte de casal; desejos na Argentina.
Cansou da antropologia e dos antropólogos,
depois des-cansou.
A moça procurou um tênis colombiano para colorir suas pisadas,
mas seu pé era pequeno para as formas argentinas.
Cecília sentiu-se pequena regressando – caminho estranho.
Perdeu-se em algum lugar na volta.
Muita coisa deu errado naquele dia, e ela errava tanto,
sempre.
Chorou sozinha.
Por fim, leu (duas vezes) o Lorca que ganhou.
Sentiu saudade dos passeios acompanhada em Buenos Aires.
Voltando a Santa Maria ou Porto Alegre,
Cecília sorriu ao escutar
“Moriré en Buenos Aires,
será de madrugada,
guardaré mansamente las cosas de vivir,
mi pequeña poesía de adioses y de balas,
mi tabaco, mi tango, mi puñado de esplín”.
Não morreria.